Em reuniões com o BC, economistas veem efeitos contidos de tarifas de Trump contra o Brasil

Para os economistas, os efeitos relacionados às tarifas parecem maiores do ponto de vista político do que, propriamente, da macroeconomia

Apesar do momento conturbado do ponto de vista político e das relações do Brasil com os Estados Unidoseconomistas apontaram, em reunião com o Banco Central, que o momento parece mais confortável em relação à inflação e que os sinais de enfraquecimento da atividade econômica começam a se avolumar. Os efeitos relacionados às tarifas, nesse sentido, parecem maiores do ponto de vista político do que, propriamente, da macroeconomia.

“Fui bastante preparado para discutir o episódio das tarifas, mas gastamos mais energia falando sobre inflação e atividade. Um participante resumiu bem: qualitativamente, o episódio é ruim, mas tem peso maior do ponto de vista da política do que da economia”, afirmou um dos participantes da primeira reunião ocorrida na sexta-feira (18) entre economistas e o Banco Central.

Segundo essa fonte, a sensação é a de que, entre os economistas, há uma confiança maior de que a desaceleração da atividade econômica está a caminho. “Cada um dos economistas acabou apresentando seus argumentos para ilustrar. Houve relatos sobre a piora nos dados de crédito e também parece existir uma leitura de que o consignado privado e seus efeitos estão muito aquém do que se esperava”, aponta.

Mesmo assim, não há grandes revisões nas projeções de PIB para baixo, ainda que os números acima de 2,5% de crescimento em 2025 tenham passado a se tornar mais raros.

Inflação

Uma fonte revela que todas as apresentações dos participantes também foram no sentido de uma inflação melhor, do ponto de vista qualitativo e numérico. “Já começamos a ouvir IPCA abaixo de 5% em 2025 e algo entre 4% e 4,5% no ano que vem. E isso vai além do câmbio, simplesmente. Alguns participantes também ressaltaram que a inflação de serviços tem uma cara menos desfavorável do que se imaginava antes”, aponta.

O diagnóstico foi semelhante na segunda reunião do dia, segundo um dos presentes. “A maioria tem a tendência de achar que inflação projetada está mais baixa, tanto para 2025 quanto para 2026, ainda que esteja acima do centro da meta. As projeções indicam valores menores do que indicavam no início do ano”, aponta, exemplificando que havia participantes com um cenário de inflação de 6,20% no começo do ano, em projeção que já foi revisada para a faixa dos 5%.

Política monetária

Na segunda reunião, o debate sobre as tarifas apareceu nas exposições de vários dos participantes. Mesmo assim, a leitura geral também é a de que os efeitos, ainda que não sejam desprezíveis, também não devem trazer impactos muito significativos para a trajetória da política monetária no curto prazo.

Na primeira reunião, alguns dos participantes indicaram contemplar em seus cenários cortes na Selic já na reunião de dezembro deste ano, ainda que tenham feito ressalvas de que o risco é pelo adiamento do início do afrouxamento monetário. Muitos dos participantes presentes no primeiro encontro têm cortes no primeiro trimestre de 2026, e poucos relataram esperar o início do afrouxamento no segundo trimestre do ano que vem.

“Os números para a Selic no fim do ciclo de aperto monetário giraram entre os 12% e os 13%. Alguns colocam a condicionante de que, se houver mudanças na condução da política econômica em 2026, esse ciclo pode ser muito maior. Continua existindo uma certa animação com uma possível mudança, mas ninguém coloca essa baita incerteza na conta ainda”, afirma.

Já no segundo encontro, de acordo com o relato de um dos presentes, a maioria dos participantes indica que espera a manutenção dos juros no patamar atual até o fim do ano. “Os que entraram na discussão de política monetária buscaram reforçar que é importante o BC manter o discurso duro”, aponta.

Crédito Valor Econômico

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