Os integrantes da Corte afirmam que não há suspeição, validam atos praticados e apontam saída como forma de reduzir crise de imagem
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli de deixar a relatoria do caso relativo ao Banco Master foi amadurecida ao longo desta quinta-feira, 12. Pela manhã, ele afirmara a colegas que não cogitava se afastar, apesar das pressões. Chegou a dizer que uma eventual saída, naquele momento, poderia soar como admissão de culpa.
Segundo a emissora CNN Brasil, os termos do afastamento foram negociados com os demais ministros da Corte. Toffoli sinalizou que não fazia questão de permanecer na condução do inquérito, mas foi enfático ao rejeitar qualquer saída por suspeição.
Nos últimos meses, vinha sustentando que não havia fundamento jurídico para ser declarado suspeito, o que reiterou na reunião desta quinta-feira. Caso a suspeição fosse reconhecida, todas as decisões e provas produzidas sob sua relatoria seriam anuladas, o que levaria a investigação a recomeçar do zero.
A pressão interna e, sobretudo, a externa pesaram. Embora ministros tenham relatado, reservadamente, desconforto com decisões de Toffoli nas últimas semanas, a nota oficial divulgada pelo STF respaldou sua atuação. O texto afirma a “plena validade dos atos praticados” e expressa “apoio pessoal” ao ministro, destacando a “inexistência de suspeição ou de impedimento”.
Durante a reunião, convocada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para discutir o relatório da Polícia Federal (PF), ministros defenderam que o STF precisava dar uma resposta institucional à sociedade. A avaliação predominante foi a de que o afastamento ajudaria a reduzir a pressão e a conter a crise de imagem do tribunal.
A reunião, que durou mais de três horas, começou com a análise das mensagens encontradas nos celulares de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O relatório da PF aponta indícios de crimes cometidos por Toffoli e menciona sua relação com a empresa Maridt, que vendeu participação no Tayayá Resort, no Paraná, a um fundo ligado ao grupo de Vorcaro.
Toffoli, segundo a CNN, rebateu as suspeitas ponto a ponto. Disse que os valores recebidos foram declarados à Receita Federal e afirmou que integra o quadro societário da Maridt ao lado de familiares. Em nota, declarou que “jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel”.
O relatório da PF tem mensagens trocadas entre Vorcaro e Zettel nas quais ambos discutem pagamentos para a Maridt. Nas mensagens, a dupla cita o nome de Toffoli e combina as transferências, que seriam pagamentos pela compra do resort. Conforme divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, há menções a pagamentos recentes, feitos em 2025, ano em que o negócio foi concluído.
STF defende arquivamento de arguição de suspeição de Toffoli
Na sequência, os ministros discutiram o pedido de arguição de suspeição e chegaram ao entendimento de que o melhor caminho seria arquivá-lo, em reforço público à defesa do colega. A conclusão foi que era preciso oferecer uma resposta eficaz à crise política instalada.
Inicialmente resistente, Toffoli acabou convencido diante de conversas com colegas, inclusive os mais próximos. O argumento central foi que sua permanência ampliaria o desgaste coletivo do STF e intensificaria a pressão externa.
Também houve críticas à atuação da PF, sob o argumento de que a apuração teria avançado sobre um ministro da Corte sem autorização. Segundo um relato colhido pela Folha, alguns ministros avaliam que a corporação investigou Toffoli sem autorização —apurações formais contra ministros do STF precisam de aval prévio do tribunal.
Embora a PF não tenha instaurado formalmente um inquérito, a avaliação desses magistrados é que a atuação ultrapassou a simples coleta de documentos que mencionavam Toffoli, ao indicar conexões e a tratá-lo, na prática, como investigado. Segundo esse grupo, a conduta deverá ser examinada pelo novo relator do caso.
Com isso, Toffoli concordou em deixar a relatoria e recebeu manifestações de solidariedade dos demais integrantes do STF. A escolha de André Mendonça como novo relator foi bem recebida internamente, por ele ser visto como um nome moderado.
Os ministros elaboraram então uma declaração pública na qual afirmam que, apesar da saída de Toffoli do caso, não há suspeição e que todos os atos por ele praticados permanecem válidos. A medida foi considerada essencial para evitar uma onda de anulações e novos desgastes à imagem da Corte.
A reunião foi dividida em duas etapas — a primeira, de cerca de duas horas e meia; a segunda, mais breve. Ao deixar o encontro, Toffoli classificou a reunião como “excelente” e afirmou que a decisão sobre seu afastamento foi tomada de forma unânime.





