Revista publica texto sobre ligações de ministros com o Banco Master, menciona conflitos de interesse e planos da direita de deixar magistrados sob risco de impeachment
A revista britânica The Economist publicou, na 3ª feira, o texto “A mais alta corte do Brasil está envolta em um enorme escândalo”, no qual abordou questionamentos sobre as ligações entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 por suspeitas de fraude.
No texto, a publicação citou as ações do ministro Dias Toffoli enquanto era relator do caso envolvendo o banco e seu controlador, Daniel Vorcaro. Segundo a Economist, “houve problemas desde o princípio”.
Entre as controvérsias, a revista destaca que Toffoli teria “viajado em um jatinho privado com um advogado do Banco Master”, “reduzido o tempo dado às testemunhas do caso para depor à Polícia Federal” e “barrado a maioria dos especialistas forenses da polícia de ter acesso ao material apreendido de Vorcaro (uma decisão da qual ele recuou posteriormente)”.
A publicação também alude à informação veiculada pela imprensa brasileira de que “Vorcaro investiu em um resort de luxo pertencente aos irmãos de Toffoli, e no qual Toffoli tem participação”.
A Economist destacou ainda as possíveis consequências políticas da nuvem de suspeição que paira sobre o STF neste ano eleitoral. Segundo a revista, “isso é relevante porque se espera que candidatos de direita tenham ampla vitória no Senado nas eleições do Brasil, em outubro. Eles podem conquistar cadeiras suficientes para abrir processos de impeachment contra ministros do STF.”
A publicação acrescentou que a direita brasileira “nutre especial animosidade em relação à Corte por seu papel no processo contra seu ex-líder, Jair Bolsonaro”, condenado a mais de 27 anos de prisão por suposta tentativa de golpe de Estado.
Mas Toffoli não é o único ministro citado pela reportagem. A revista britânica também menciona o contrato “estranhamente vago e lucrativo” da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, e a investigação aberta pelo ministro contra servidores da Receita Federal por vazamento de dados confidenciais.
“Moraes determinou que os suspeitos usassem tornozeleiras eletrônicas, cancelou seus passaportes e os proibiu de viajar ou entrar nas dependências da Receita Federal. Muitos brasileiros ficaram indignados”, afirmou, acrescentando que o ministro se utilizou do fato de ser relator do inquérito das fake news para enquadrar os servidores do Fisco.
De acordo com a revista, essa não é a 1ª vez que Moraes amplia o escopo do inquérito, originalmente aberto para apurar os ataques contra os ministros e seus familiares por meio de notícias falsas nas redes sociais.
“Em 2019, Moraes a utilizou para encerrar uma investigação na Receita Federal sobre diversos funcionários, incluindo ministros do STF. Naquele mesmo ano, a revista ‘Crusoé’ relatou ligações entre Toffoli e o chefe da Odebrecht, construtora brasileira que esteve no centro do maior escândalo de corrupção da história da América Latina”, escreveu a Economist. “Após a publicação da reportagem, Moraes usou sua posição como responsável pela investigação sobre notícias falsas para ordenar que o artigo fosse removido da internet. Só a indignação pública o forçou a voltar atrás”.
A revista relembra que Toffoli anulou as multas contra a Odebrecht, apesar de os executivos da empresa terem admitido a existência de um departamento para coordenar o pagamento de propinas.
A Economist afirma ainda que a “interação entre empresas e a Corte é comum” e exemplifica com o chamado “Gilmarpalooza”, evento anual comandado pelo ministro Gilmar Mendes em Lisboa, que reúne dezenas de políticos, magistrados e empresários.
“Muitos participantes têm casos correndo no STF”, disse a revista. A conferência é “organizada por uma universidade privada fundada por Mendes e hoje comandada pelo filho do ministro. A universidade recebeu financiamento da J&F Investimentos, companhia que controla a JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo”.
Na conclusão do texto, a Economist aborda a iniciativa do presidente da Corte, Edson Fachin, de criar um código de conduta para o STF inspirado nas experiências norte-americana e alemã, com relatoria da ministra Cármen Lúcia.
“Toffoli e Moraes reagiram imediatamente. Ambos afirmam que nunca julgaram um caso em que houvesse conflito de interesses e que a adoção de um código de ética é desnecessária. Quaisquer que sejam suas convicções, seus adversários no Congresso estão de olho”, concluiu a publicação.





