Mensagens mostram que dono do Master via dono do BTG como seu principal inimigo no mercado financeiro
Além da intensa troca de mensagens com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no dia da primeira prisão de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal (PF), o material extraído do celular do ex-CEO do Banco Master também traz um recorte sem filtros da forma como o banqueiro enxergava sua disputa com o dono do BTG Pactual, André Esteves, que ele acusava nos bastidores de atuar para prejudicá-lo.
O histórico das conversas entre Vorcaro e a então namorada Martha Graeff traz um largo histórico de críticas e ressentimentos do executivo com Esteves. Em vários momentos, ele se queixa de matérias negativas que julga terem sido plantadas pelo rival, e chega a dizer que, nos treinos de luta, pensava em Esteves para render mais. Na última mensagem enviada a Moraes antes de ser preso, ele diz esperar “batidas do Esteves” no negócio que acabara de anunciar e que nunca se concretizaria, com o grupo Fictor.
No auge da repercussão do anúncio da compra da instituição pelo Banco BRB, anunciada no final de março, o banqueiro confidenciou a Martha no dia 31 que achava “muito ruim” a exposição provocada pela divulgação do negócio e reclamou sobre a quantidade de jornalistas “descendo o cacete”, mas admitiu que “não tinha o que fazer” a não ser “encarar essa”.
Ao saber disso, Martha pergunta de Vorcaro achava que “ia dar certo” a negociação com o BRB. Ele responde que sim e ela questiona sobre “o André” – que, naquele dia, tinha estado com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir o caso do BRB.
Quando Martha pergunta “E o André”, Vorcaro responde: “Não entro em guerra pra perder com o Senhor dos Exércitos”.
A expressão tem um duplo sentido. Por um lado, reflete a narrativa que Vorcaro repetia para políticos e interlocutores do mercado financeiro. O BTG tinha participado meses antes de uma discussão com o próprio BC e outros grandes bancos para comprar o Master por 1 real, que não foi adiante porque o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) não aceitou ficar com os passivos. Era uma discussão conjunta, mas Vorcaro dizia que Esteves o comandava.
Naquele momento, não só ele, mas vários CEOs e controladores de bancos procuraram o BC para falar contra o negócio com o BRB, já antecipando que o prejuízo caíria na conta do FGC, financiado principalmente pelos bancões — Santander, Bradesco, Itaú e BTG. Para esses bancos, o BC devia partir para a liquidação para impedir que o rombo do fundo com o Master aumentasse.
Em sua versão, que Vorcaro repetia para a namorada, ele e o Master, um banco em trajetória ascendente, eram perseguidos. Esteves sempre ocupou, nessa descrição, a figura de expoente antagônico dessa briga renhida.
Mas a figura do Senhor dos Exércitos, usada neste episódio de forma jocosa, também remete ao vínculo da família Vorcaro com a Igreja Batista Lagoinha. A expressão é recorrente entre fiéis evangélicos para se referir a Deus, e o banqueiro já a utilizou em outros momentos com a namorada.
Na conversa do dia 31 de março, Martha pergunta a Vorcaro o que Esteves falou na reunião com Galipolo. “Ele ta desvairado kkkk”, responde o dono do Master. “Descontrolou”. Ela ri e comenta: “Não deve estar dormindo”. E Vorcaro reforça: “Ficou falando conversa de quinta série. Inacreditável. Que alguem falou que falei mal”. E quando ela observa: “Que preguiça, ele desce o pau em você é tem a coragem de falar isso”, ele responde: “Eu falei com ele. Eu quem escutei isso e isso. Aí ficou tipo dois adolescentes”. E conclui: “Se eu segurar 2 semanas a pressão de mídia acabou”.
Guerra exposta
As expectativas de Vorcaro, porém, não se confirmaram. Três dias depois, ele admite: “Tô apanhando e batendo o dia inteiro. Foi muito pior do que eu imaginava. Muito.”
“Amor do céu, e agora?”, questiona Martha, assustada.
“Agora a guerra com o André tá exposta. Ao menos as pessoas do mercado entendem que as matérias ruins estão erradas e compradas por ele”, respondeu.
Dias depois, Vorcaro relatou que André Esteves teria sugerido uma “trégua” em uma conversa no dia 4 de abril, na qual o banqueiro do BTG teria oferecido uma proposta não detalhada nas mensagens para que o Master abandonasse as tratativas com o BRB e fechasse com o banco privado.
Procurado para comentar as falas do dono do Master, André Esteves preferiu não se manifestar.
“Já estive com André, na casa dele cedo. Está baleado também, com a voz até fraca, querendo trégua, falando pra baixarmos a bola e a poeira”, descreveu Vorcaro.
Horas mais tarde, enviou um link de um site de negócios com um artigo entitulado “Os estratagemas de André Esteves para brecar a operação entre o Banco Master e o BRB”. Martha reagiu xingando o concorrente do namorado e perguntou o saldo do encontro de mais cedo.
O dono do Master disse que foi acompanhado na reunião por seu sócio, Augusto Lima. “Levei para ter uma testemunha”. E depois de dizer que Lima sabia imitar Esteves de um jeito engraçado, emendou: “André disse que era o maior banqueiro do mundo. E ele era Deus que apareceu na nossa vida, que tínhamos que agradecer a Deus a proposta dele e esquecer o BRB”, escreveu Vorcaro.
Naqueles dias, o dono do Master vinha garantindo à namorada que as chances de o negócio com o banco de Brasília dar errado era zero, e que aparentemente ele não tinha interesse em incluir o dono do BTG na operação. “Fui lá porque o Banco Central pediu, porque ele é ardiloso. Entra na mente dos caras do Bacen”.
O que se deu nos meses seguintes foi o oposto disso, como se viu. As fraudes do Master foram descobertas, o negócio com o BRB fez água e Vorcaro acabou na cadeia.





