PF foca investigação de Lulinha em elo com Careca do INSS, ida para a Espanha e empresa de gaveta

Documentos e relatórios produzidos pela Polícia Federal, encaminhados ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, apontam quais são as linhas de investigação quando o assunto é o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Os focos da polícia no momento estão na mudança do filho de Lula para a Espanha, sua relação com o empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, pagamentos suspeitos de viagens e uma empresa de gaveta criada no início deste ano.

A falta de uma decisão do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, sobre um pedido de continuidade da CPMI dava a entender que ela seria encerrada nesta semana sem atingir Lulinha ou políticos de alto escalão. Mas o STF foi questionado sobre o tema e Mendonça determinou em decisão liminar a continuidade da comissão por ao menos mais 60 dias.

A investigação da PF e a CPMI ocorrem em paralelo. Uma das principais linhas de investigação da polícia é esclarecer a saída de Lulinha do Brasil. Uma das hipóteses é que a viagem tenha sido uma fuga, diante do avanço das investigações das fraudes no INSS pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.

A reportagem apurou que esse é um dos alertas feitos pela PF em um relatório enviado a Mendonça, relator do caso no STF. O documento elaborado pela polícia foi utilizado para fundamentar pedidos da instituição de quebras de sigilos, autorizados pelo ministro ainda em janeiro.

No relatório, a PF registra que, do ponto de vista investigativo, a ida ao exterior, em circunstâncias que indicariam ausência de retorno imediato, poderia configurar tentativa de evitar o alcance das investigações da polícia e da CPMI.

A defesa de Fábio Luís contesta essa interpretação e afirma que a mudança para a Europa ocorreu antes da deflagração da chamada operação Sem Desconto, responsável por investigar o esquema fraudulento bilionário no INSS.

Em manifestação apresentada ao STF, o planejamento da mudança para a Espanha teria começado ainda em 2024, com providências adotadas apenas no ano seguinte, incluindo matrícula dos filhos em instituições de ensino e organização da ida para o exterior.

Relações de Lulinha com o Careca do INSS

A análise policial menciona ainda a suposta proximidade entre Lulinha e o “Careca do INSS”, apontado como operador central das fraudes que atingiram milhões de beneficiários do sistema previdenciário.

Um dos pontos citados no inquérito envolve a viagem de Lulinha e o “Careca do INSS” a Portugal, realizada em 2024. A defesa do próprio Lulinha confirmou que o deslocamento foi custeado por Antunes e teve como objetivo conhecer um projeto voltado à produção de canabidiol medicinal. Durante a visita, teriam sido analisadas possíveis áreas para instalação de uma unidade produtiva. A defesa sustenta que não houve participação em negociações, investimento financeiro ou formalização de qualquer parceria comercial.

Ainda no âmbito das investigações, Lulinha reconheceu ter mantido contato com o “Careca do INSS”, mas classificou a relação como esporádica e de natureza social. Em manifestação formal ao STF, sua defesa relatou que ele foi apresentado ao empresário por meio de uma amiga em comum, sendo informado de que se tratava de um empreendedor do setor farmacêutico, sem conhecimento prévio de qualquer irregularidade envolvendo o INSS.

Mas os investigadores apuram a hipótese de que iniciativas empresariais desse tipo poderiam ter sido utilizadas para ocultar recursos supostamente vindos de fraudes previdenciárias. A investigação, em diferentes frentes, também quer saber se projetos no setor de canabidiol poderiam servir como mecanismo de lavagem de dinheiro, ainda que essa linha de apuração esteja em fase preliminar.

Outro elemento considerado pela PF diz respeito a registros e depoimentos, colhidos na própria CPMI, que mencionam o nome de Lulinha. Um ex-funcionário ligado ao “Careca do INSS” afirmou ter ouvido relatos sobre supostos pagamentos mensais ao filho do presidente como uma espécie de mesada. Mas a reportagem apurou que, pela análise de movimentações bancárias realizadas em contas diretas, até o momento, não se identificou transferências que comprovem esses repasses.

As investigações buscam entender seapesar disso houve algum tipo de triangulação no suposto repasse de recursos ou se a “suposta mesada” foi paga por intermediações em contas de terceiros, os quais podem ter atuado como articuladores ou laranjas.

As autoridades também reuniram anotações e mensagens que sugeririam encontros de Lulinha com o “Careca do INSS” em Brasília, além de outras interações entre ambos. Esses indícios, segundo fontes a par das investigações, seguem sob análise e dependem de aprofundamento, com novas provas e diligências.

Possível repasses de recursos por meio de agência de viagens

Em outra frente da investigação, a Polícia Federal passou a examinar a eventual destinação de recursos a Lulinha por meio de terceiros. O foco recai sobre transferências realizadas pelo “Careca do INSS” a pessoas próximas ao filho do presidente Lula, incluindo a empresária Roberta Luchsinger. Ela nega qualquer irregularidade e quaisquer envolvimentos com as fraudes relacionadas ao INSS.

A partir da quebra de sigilos, os investigadores identificaram movimentações financeiras que levantaram suspeitas sobre o destino final de parte dos valores. Uma das linhas de apuração quer esclarecer se recursos do esquema fraudulento no INSS teriam sido direcionados a uma agência de viagens utilizada por Lulinha.

De acordo com os dados analisados pelos investigadores, repasses feitos à empresária foram seguidos por pagamentos significativos a uma empresa do setor de turismo. Essa agência teria emitido passagens aéreas vinculadas ao cadastro de Lulinha em sistemas de controle migratório.

Fontes ligadas à Polícia Federal consideram a hipótese de que despesas pessoais de Lulinha, como viagens, possam ter sido custeadas por meio de intermediários. Essa interpretação se apoia em depoimentos colhidos durante a CPMI do INSS que sugerem que benefícios teriam sido concedidos sem registro direto nas contas do eventual destinatário.

A defesa de Fábio Luís tem negado qualquer irregularidade e afirma que as conclusões apresentadas são indevidas. Segundo os advogados, a agência mencionada presta serviços à empresária citada e à sua família, sendo natural que eventualmente também tenha sido utilizada para emissão de passagens de terceiros. Afirmam ainda que não há relação entre o investigado e os fatos apurados no âmbito do INSS.

A defesa de Roberta Luchsinger afirma que os serviços prestados por sua empresa são legítimos e que os valores recebidos não têm relação com práticas ilícitas. Os advogados sustentam que eventuais emissões de passagens para Lulinha ocorreram de forma pontual e sem vínculo com o esquema investigado.

Dados analisados pelos peritos indicariam que parte dos recursos movimentados coincide com o período em que teriam ocorrido os desvios nas aposentadorias, ainda que não se tenha confirmado as correlações. Os próprios investigadores reconhecem que os elementos reunidos até agora são preliminares e necessitam de confirmação com novas provas.

A defesa do empresário reafirma que ele está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos, que pode retornar ao Brasil a qualquer momento, caso seja demandado, e sustenta que não há evidências que o vinculem às fraudes investigadas.

Empresa de “gaveta” aberta na Espanha

A abertura de uma empresa de “gaveta” na Espanha por Lulinha também passou a integrar o conjunto de informações analisadas no contexto das investigações. De acordo com apuração do jornal Folha de S. Paulo, o empreendimento foi registrado em Madri no início de 2026, em meio ao avanço das diligências conduzidas pela Polícia Federal no caso envolvendo as fraudes do INSS.

Uma empresa de gaveta é uma companhia que já foi aberta e registrada, mas nunca teve atividade real, ficou “guardada”, sem operar. Ela pode ser vendida para alguém que queira começar um negócio rapidamente, sem passar pelo processo de abertura do zero ou ser utilizada pelo próprio fundador em momento considerado oportuno.

A empresa teria sido formalizada como uma sociedade limitada com capital inicial equivalente ao mínimo exigido pela legislação espanhola, cerca de 3 mil euros, pouco menos de R$ 20 mil.

O endereço registrado fica em uma região empresarial da capital espanhola, e o objeto social inclui atividades amplas na área de tecnologia, como consultoria técnica, desenvolvimento de sistemas e integração de soluções digitais.

O registro da empresa teria ocorrido pouco tempo depois de o nome de Lulinha aparecer em documentos e depoimentos relacionados ao inquérito que investiga o suposto esquema de desvios em aposentadorias.

A coincidência temporal chamou a atenção dos investigadores e de membros da própria CPMI, embora, até o momento, não haja quaisquer indicações de que a empresa possa ser utilizada para movimentações irregulares.

A defesa do empresário sustenta, ao STF, que a abertura da companhia não configura ilegalidade e faz parte de um planejamento pessoal de atuação futura no setor tecnológico.

Ela afirma que o negócio ainda não está em operação e que a constituição da empresa seguiu todos os trâmites legais exigidos pelas autoridades espanholas. Também destaca que empreender no exterior é uma prática legítima e não pode ser interpretada como indício de irregularidade.

CPMI sofre para convocar e quebrar sigilos de Lulinha

A CPMI do INSS chegou a aprovar, em fevereiro de 2026, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha. A medida foi motivada por menções ao nome do empresário em diálogos de investigados, incluindo Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

A decisão, no entanto, foi posteriormente suspensa pelo Supremo Tribunal Federal, por determinação do ministro Flávio Dino. Ele entendeu que a aprovação da quebra ocorreu de forma irregular, em votação conjunta, sem análise individualizada dos requerimentos, o que fere o “devido processo legal”. Com isso, a quebra de sigilo foi revertida e a CPMI teria que realizar nova deliberação, caso quisesse retomar o tema. Ocorre que, com os encaminhamentos finais, esse deve ser um ponto que ficará sem respostas à Comissão.

A Comissão também tentou convocar Lulinha para depor, ainda em dezembro de 2025. O pedido, articulado pela oposição, acabou rejeitado pela base governista, que alegou ausência de provas concretas e classificou as acusações como “infundadas”.

Apesar disso, o tema permaneceu no centro das discussões da comissão, que se vê agora com atuação limitada.

O presidente Lula chegou a afirmar que, se seu filho tiver envolvimento nas fraudes do INSS, será investigado e “pagará o preço”. Que se não estiver, que se defenda. Ele chegou a evidenciar que a lei vale para todos, “sem proteção especial” e que a PF está livre para fazer o seu trabalho, sem interferências ou mecanismos de proteção.

Porém, no fim de semana um dos advogados que diz representar Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, fez duras críticas à atuação da PF, afirmando que a investigação tem se baseado em suposições frágeis e interpretações forçadas para tentar sustentar acusações sem provas concretas.

Segundo ele, há um padrão de condução que parte de conclusões prévias para depois buscar elementos que as justifiquem, além de apontar como grave o vazamento de informações do caso, que classificou como ilegal e prejudicial à credibilidade do processo, embora tenha declarado confiar que a direção da corporação adotará medidas para corrigir eventuais distorções internas.

Crédito Gazeta do Povo

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