Oposição adota estratégia pela anistia após Moraes suspender dosimetria

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de suspender a aplicação da Lei da Dosimetria deve acelerar a ofensiva da oposição em defesa de uma anistia ampla, geral e irrestrita aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.  

A aposta da oposição em uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da anistia leva em conta os votos que derrubaram o veto da Lei da Dosimetria e a tramitação que não depende do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para fazer valer o texto depois de aprovado no Congresso.  

Antes focados na aprovação de um projeto de lei para a anistia, parlamentares de oposição decidiram alinhar esforços em PECs, pois elas são consideradas juridicamente mais robustas diante de eventuais contestações no STF.

O responsável pela apresentação da proposta mais recente foi o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ). “Eu sempre disse que a dosimetria, como projeto de lei, não ia resolver. Tem que ser uma PEC, porque aí nós não vamos depender de ninguém do STF”, afirmou em publicação feita em suas redes sociais. 

No Senado, uma PEC apresentada em 2023 também deve ser retomada. À Gazeta do Povo, o líder da oposição no Congresso, senador Izalci Lucas (PL-DF), afirmou que a anistia deve ser tratada em duas frentes: pelo Senado e pela Câmara.

A estratégia, de acordo com o senador, é avançar em ambas as Casas para que o tempo até a aprovação seja diminuído. “É importante aprovar aqui no Senado. Se conseguir aprovar na Câmara mais ou menos o mesmo texto, fica mais fácil”, avaliou o senador.  

Na prática, quando propostas semelhantes são aprovadas, elas são apensadas, ou seja, passam a tramitar em conjunto. Sendo assim, se a PEC for aprovada primeiro no Senado, ao chegar na Câmara, pode ser apensada à proposta já em tramitação. 

Além do argumento jurídico a favor da PEC, parlamentares oposicionistas também enxergam vantagem política na alternativa. A avaliação é de que a derrubada do veto presidencial à Lei da Dosimetria demonstrou que há hoje maioria suficiente no Congresso para aprovar uma PEC sobre anistia. 

“A PEC tem que ser votada porque nós já tivemos votos nesta dosimetria, que são suficientes para aprová-la”, afirmou o deputado Sóstenes.  

O Congresso derrubou o veto presidencial com 318 votos na Câmara e 49 no Senado. Para aprovar uma PEC é preciso que 308 deputados e 49 senadores votem a favor da proposta. 

Outro ponto considerado estratégico é que uma emenda constitucional, diferentemente de um projeto de lei, não depende de sanção do presidente Lula após a aprovação pelo Legislativo. Se for aprovada pela Câmara e pelo Senado, a proposta é promulgada no próprio Congresso e passa a valer. 

PEC da Câmara ainda precisa de apoio para passar a tramitar 

O texto proposto pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, prevê a anistia para pessoas que participaram, direta ou indiretamente, dos atos ocorridos em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023. 

De acordo com a proposta, seriam perdoados os condenados pelos crimes de dano qualificado, deterioração de patrimônio público, associação criminosa armada, tentativa ou abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. 

Na justificativa, o autor argumenta que crimes como dano qualificado e deterioração de patrimônio público possuem pequeno potencial ofensivo. Além disso, sustenta que as acusações de associação criminosa, golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito representariam, no contexto desses fatos, uma forma de perseguição política contra opositores do atual governo. 

Sóstenes argumenta ainda que a medida é necessária para restaurar a soberania do Congresso Nacional e garantir a harmonia entre os poderes.  “O Congresso Nacional tem que ser respeitado. Não pode um único juiz derrubar a decisão do Parlamento. Isso é invasão de competência, é invasão de poderes e uma afronta à democracia!”, afirmou o deputado. 

A PEC que tramita no Senado, por sua vez, já tem os apoiamentos necessários e aguarda designação de um relator para ser apreciada na Comissão de Constituição e Justiça.

Irritação do Congresso pode impulsionar PEC, diz deputado 

A reação ganhou força após Moraes determinar a suspensão da nova legislação aprovada pelo Congresso e promulgada na última semana, sob o argumento de que há questionamentos constitucionais pendentes de análise no STF. A decisão foi recebida por aliados de Bolsonaro como uma interferência do Judiciário sobre uma decisão do Legislativo. 

“A irritação do Congresso com as medidas ditatoriais do STF pode impulsionar a PEC”, avaliou o deputado Maurício Marcon (PL-RS). 

A avaliação é de que a medida de Moraes fortaleceu o discurso de enfrentamento à Corte, pode acelerar a tramitação da proposta, servir como um elemento de mobilização da base que apoia o ex-presidente Jair Bolsonaro e ainda de pressão sobre as presidências da Câmara e do Senado para pautar o tema ainda neste semestre. 

Para o analista político Alexandre Bandeira, a PEC da Anistia possui um objetivo focado no embate do discurso político atual e pode alimentar candidaturas nas eleições de outubro de 2026.

“Sem dúvida nenhuma, ela [PEC da Anistia] serve muito mais para você acirrar os ânimos entre os dois poderes, Supremo Tribunal Federal e Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, cria elementos e argumentos da necessidade de se discutir e de se trabalhar até mesmo candidaturas que tenham como pauta a renovação do Congresso e do Supremo Tribunal Federal”, avalia Bandeira. 

A Lei da Dosimetria havia sido promulgada pelo Congresso após a derrubada do veto do presidente Lula. O texto alterava critérios de aplicação e execução de penas relacionadas aos crimes contra o Estado Democrático de Direito e foi construído como alternativa à anistia, como forma de reduzir punições consideradas desproporcionais aos condenados do 8 de janeiro. 

A oposição também sinalizou que deve deixar de lado a dosimetria após a decisão de Moraes. “Com a PEC, nós não queremos mais dosimetria. Tem que ser anistia ampla, geral e irrestrita”, afirmou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante. 

Oposição aposta que escolha por PEC reduz contestações 

Entre oposicionistas, a avaliação é de que a via constitucional reduziria o espaço para futuras suspensões judiciais, diferentemente do que ocorreu com a Lei da Dosimetria.

Juristas também avaliam que a PEC oferece maior segurança jurídica ao Congresso. O advogado Georges Humbert afirma que, “num Estado Democrático de Direito em sua plenitude”, a PEC seria o caminho “mais robusto” do ponto de vista técnico-constitucional. 

Segundo Humbert, a principal diferença está no parâmetro de controle judicial. “Enquanto a lei ordinária se confronta com toda a Constituição, a emenda só pode ser invalidada se afrontar as cláusulas pétreas”, afirma. Na avaliação dele, isso reduziria significativamente o espaço para questionamentos no Supremo. 

O advogado sustenta ainda que a anistia é uma prerrogativa típica do Parlamento. Para Humbert, diferentemente da discussão sobre a dosimetria — que acabaria devolvendo ao Judiciário a decisão sobre o cálculo para a redução das penas —, a PEC recolocaria o debate “no foro que a Constituição reservou ao Legislativo”. 

Humbert também aponta como vantagens da proposta o quórum qualificado de três quintos necessário para aprovação, o efeito imediato sobre os beneficiados e a reafirmação da competência parlamentar. 

Mesmo com PEC, STF ainda pode interferir em decisão do Congresso

Apesar disso, ele reconhece riscos jurídicos relevantes. Segundo o advogado, o STF pode invocar precedentes já consolidados e, eventualmente, declarar inconstitucional uma emenda constitucional caso entenda haver violação a cláusulas pétreas, especialmente no que se refere à separação entre os Poderes.

Ou seja, caso a PEC da anistia venha a ser aprovada pelo Legislativo no futuro, ela ainda poderia ser questionada no STF sob a tese de que o Congresso estaria interferindo diretamente em condenações impostas pela Corte.

Ele também menciona a possibilidade de judicialização imediata da proposta por meio de pedidos cautelares.

Crédito Gazeta do Povo

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