Por Eli Vieira
A economia é uma ciência parecida com a psicologia: enquanto tem áreas de grande rigor intelectual, que acompanharam as outras ciências empíricas em empregar o melhor da análise estatística, também tem áreas dominadas pela palpitaria ideológica que afetam negativamente a vida de muita gente.
Os psicanalistas que diziam que a homossexualidade vem do pai ausente e que as “mães geladeiras” são culpadas por filhos autistas, evidentemente, fazem parte do segundo grupo na psicologia.
Socialistas autodeclarados como Fernando Haddad, entre outros, fazem parte do segundo grupo na economia; embora, dos seus três títulos acadêmicos, apenas o mestrado seja nominalmente na área.
A contribuição de Haddad tem um raro poder destrutivo até entre seus pares: ele não fica apenas nas ideias erradas, mas as aplica na qualidade de ministro da Fazenda para promover o apetite insaciável por impostos do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Haddad insiste: União Soviética não foi socialismo de verdade
Haddad, que estaria de saída do Ministério da Fazenda até abril, lançou um livro novo este mês: “Capitalismo superindustrial” (Zahar, 2026).
No evento de lançamento em São Paulo, o autor só trocou figurinhas com a antropóloga Lilia Schwarcz e o sociólogo Celso Rocha de Barros, “sem qualquer menção à [sua] atuação recente na política ou indicações sobre seu futuro”, segundo o site InfoMoney.
Haddad não quis falar com a imprensa no fim do evento. Durante o debate, declarou que “nunca curtiu” a União Soviética e que pensava, quando estudante, “Esse cara aqui, Marx, não pode ter gerado uma experiência tão autoritária quanto aquela”.
Na obra, ele repete a mesma cantilena que está em suas obras há décadas: que a União Soviética deu errado não porque o socialismo dá errado, mas porque foi capitalista.
Ele alega que o real sistema do bloco totalitário era um “capitalismo de Estado, coletivismo burocrático ou sociedade gerencial, formações sociais que teriam superado o capitalismo clássico sem correspondência com os ideais socialistas”.
Esta é uma celeuma entre os próprios marxistas. Como o próprio Haddad reconhece, não é a perspectiva de Leon Trótski, opositor de Stálin que acreditava que o bloco, na verdade, tornou-se um “Estado degenerado dos trabalhadores”, em vez de reverter ao capitalismo, derrubado em 1917.
Para quem não precisa salvar um ideal utópico dos estragos que já causou ao mundo, a questão não é tão difícil. A definição precisa da ideia de socialismo que foi tentada, explica o filósofo liberal Friedrich Hayek em “A constituição da liberdade” (1960), é a nacionalização “dos meios de produção, distribuição e troca”, com meta em cooptar todas as atividades econômicas para “um plano abrangente direcionado a algum ideal de justiça social”.
“No que diz respeito à escola socialista que no passado foi a mais influente, o exemplo do ‘maior experimento social’ dos nossos tempos foi decisivo: o marxismo foi morto no mundo ocidental pelo exemplo da Rússia”, concluiu Hayek.
Haddad aplicou suas ideias socialistas no governo? Muitos diriam que não, pela ausência de formas explícitas de tentar transferir para a coletividade a propriedade dos “meios de produção”.
Mas, de um ponto de vista mais panorâmico, a resposta é sim: socialistas como Haddad continuam a apostar no dirigismo estatal da economia, uma mania brasileira que parou a produtividade do país no tempo e nos atrasou dentro do grupo de países similares. Já fomos humilhados, economicamente falando, pelo Chile, Uruguai, Polônia e, em breve, também pela Argentina.
Falsificações marxistas sobre a história da Inglaterra
Haddad identificou como novidades em seu livro apenas os dois capítulos na primeira parte e o último capítulo da quinta parte (Capítulo 12).
Haddad começa o primeiro capítulo com trechos de “O capital” em que Karl Marx manifesta certa perplexidade com o “acúmulo de capital” anterior ao capitalismo. A solução de Marx e Haddad é que não é o capitalismo que cria essa acumulação, mas que ela vem como pré-requisito para o desenvolvimento desse sistema econômico, a partir de uma assim chamada “acumulação primitiva”.
Apesar de não se dizer marxista, Haddad reproduz acriticamente alegações de Marx sobre a história da Inglaterra. Por exemplo, Marx alega que, após o fim da servidão (e do feudalismo), no século XIV “a imensa maioria da população era ainda constituída de camponeses proprietários” (palavras de Haddad, parafraseando trecho do Capítulo 27 d’O Capital).
O interesse nas alegações sobre as características dos trabalhadores rurais ingleses, claro, é porque Marx via a Inglaterra como o berço do capitalismo, onde as supostas “leis” do movimento histórico-econômico estariam em desenvolvimento avançado e, inevitavelmente, levariam à revolução. Nunca aconteceu, evidentemente.
Os historiadores do período não concordam com Marx sobre a caracterização da “maioria de proprietários” pós-servidão que depois teriam sofrido desapropriação pelos capitalistas. “O tratamento de Marx para as causas da emergência do capitalismo é intrigante, mas em última análise insatisfatório”, escreveu em 1988 o historiador Alan MacFarlane. Ele explicou que, na verdade, a sociedade rural inglesa da época consistia em uma variedade de papéis, nos quais é difícil provar que houvesse uma maioria de camponeses pequenos proprietários.
A evolução de um mundo medieval em que o parentesco e o status eram o que mais importava para um mundo moderno de contratos e salários foi lenta, gradual, durante séculos, e não se encaixa na simplificação de Marx. Simplesmente não é verdade que houve na Inglaterra, no fim do século XIV, um momento em que “é lançada ao mercado de trabalho uma massa de proletários, de indivíduos sem direitos”. A questão é muito mais complexa, envolvendo a atomização do poder estatal na Europa ocidental, práticas religiosas específicas, urbanização, entre outros fenômenos sociais.
E este é o problema geral do marxismo: uma tentativa ambiciosa de reduzir a história à luta de classes e de reduzir a relação patrão-empregado a um jogo de soma zero. É um modo obsoleto de pensar, já superado quando se faz história e economia de um modo mais rigoroso.
A história que Marx e Haddad tentam contar é parcial: camponeses ingleses foram forçados a se tornarem proletários industriais pela perda artificial de um estado anterior melhor como pequenos proprietários de terra. Historiadores como MacFarlane afirmam que fatores não econômicos, como a peste negra em 1350, são mais importantes para explicar o fim do campesinato e a ascensão da classe assalariada do que a generalização “luta de classes”.
Além da peste negra, há prova de que os direitos de propriedade associados ao capitalismo já existiam na Inglaterra no século XIII. “Está claro que a velha crença de que os servos [villeins] não podiam ser proprietários de terra não é mais sustentável, dado que escrituras de servos foram descobertas”, disse MacFarlane em 1978. Esse é um dos vários indícios de que a Inglaterra já era uma sociedade de mercado avançada muito tempo antes da suposta súbita ruptura que Marx aponta como início do capitalismo.
O que os indícios históricos sugerem é que a clássica categorização estimulada pelos marxistas de uma distinção rígida entre um período feudal e um período capitalista é artificial. Isso me lembra a tentativa de diferenciar sexo de gênero, quando coisas atribuídas apenas à cultura e rotuladas como “gênero” têm influência da biologia. Fantasias de acadêmicos desmoronando perante a realidade.
Tentativa de reinterpretar realidade econômica atual para reafirmar obsessões sobre “exploração”
A outra parte original do livro, o Capítulo 12, tem mais a ver com o título. Aqui, Haddad compara sua antiga ideia de que o atual sistema econômico seria um “capitalismo superindustrial” com outras propostas posteriores, de que viveríamos sob um “capitalismo cognitivo” ou “tecnofeudalismo”.
A ideia é tentar reinterpretar a realidade atual, mais uma vez no esforço de tentar salvar a narrativa geral de exploração de Marx. “O trabalhador assalariado do capitalismo industrial é explorado na medida em que sua força produtiva é consumida no ciclo da produção, enquanto o trabalhador assalariado envolvido em atividades criativas, próprias do capitalismo cognitivo, é explorado na medida em que sua força criativa é colocada a serviço da acumulação por todo o ciclo econômico”, tenta explicar Haddad. Ele cita um autor que tenta reinterpretar o trabalhador que oferece serviços criativos hoje como um “cognitariado”, um paralelo com proletariado.
Como é difícil comparar ideias a parafusos produzidos em indústrias inglesas, Haddad e seus colegas tentam forçar a barra de que a propriedade intelectual é o novo latifúndio. Há tempos, venho perguntando aos socialistas que alegam que bilionários não deveriam existir se os bilhões adquiridos pela escritora J. K. Rowling, ao criar a série Harry Potter, seriam de alguma forma resultado da exploração de alguém. Pelo visto, a resposta de Haddad é afirmativa. Resta saber quem é explorado, em vez de compartilhar do valor criado na produção de livros, filmes e jogos que a autora estimulou.
Já o termo “tecnofeudalismo” Haddad pegou do grego Yanis Varoufakis, o economista de esquerda que se tornou celebridade há dez anos, quando foi ministro da Fazenda da Grécia por poucos meses em 2015 e ajudou a mediar as negociações entre um governo grego falido e a União Europeia.
Até aquele momento, a Grécia havia cometido vários erros, de contabilidade fraudulenta para esconder seu déficit ao entrar na zona do Euro em 2001 ao gasto exorbitante nas Olimpíadas de 2004, além de outros gastos insustentáveis.
A “solução” de Varoufakis, de um partido de esquerda radical (Syriza), foi apostar na ameaça do Grexit (deixar a União Europeia) e rejeitar a diplomacia. O resultado do populismo anti-austeridade de Varoufakis foi que a Grécia acabou aceitando termos ainda mais amargos que os originais. Ele renunciou no dia após um referendo que ele próprio promoveu.
Com esse currículo, não é surpreendente que Varoufakis seja reverenciado por outros gastadores contumazes sem interesse pela criação de riqueza como Haddad.
Depois de seu fracasso em salvar a economia da Grécia, Varoufakis criou sua ideia do “tecnofeudalismo”, alegando que o capitalismo já morreu. E, mais uma vez, o judas histórico a ser malhado sem dó pelo radical de esquerda é o pobre feudalismo europeu, que o grego agora alega que voltou na forma das Big Techs no lugar dos suseranos e nós, os supostos “servos”.
Essa manobra intelectual é equivalente ao jogador que perde no xadrez e joga o tabuleiro para o alto.
Se você quer entender o básico de economia, fuja de mistificações socialistas para forçar a barra de que eles ainda têm algo a oferecer no lugar do “capitalismo”, ou algum insight especial sobre as agruras da organização econômica atual no mundo rico.
Como propôs Thomas Sowell em “Economia básica” (2000), o entendimento dos fenômenos econômicos se dá por princípios básicos que não foram mudados subitamente entre feudalismo e capitalismo, mas que “se aplicam em muitos tipos diferentes de economias — capitalista, socialista, feudal ou o que for — e entre uma ampla variedade de povos, culturas e governos”.
“As políticas que levaram ao aumento de preços sob Alexandre, o Grande levaram ao aumento de preços nos Estados Unidos, milênios depois. Leis de controle de aluguel levaram a um conjunto muito similar de consequências no Cairo, Hong Kong, Estocolmo, Melbourne e Nova York”, explicou Sowell, um ex-marxista que viu na prática, no Departamento do Trabalho do governo americano, que o socialismo não funcionava.
Entre esses princípios estão a escassez, que é a condição natural da humanidade, não algo inventado de última hora pelos capitalistas; e a produtividade, ou seja, a criação de valor econômico, tema de pouco interesse dos socialistas, que só querem saber como tomar de alguns à força e distribuir para outros. Mas como se combate a pobreza sem um interesse genuíno por como criar a riqueza? É o que socialistas de todas as estirpes têm dificuldade de responder, pois se interessam mais por punir ricos do que por ajudar pobres, como sugerem estudos das atitudes por trás da adesão a políticas de redistribuição.
Uma das previsões fracassadas de Marx é que, na Inglaterra em específico e no mundo capitalista em geral, os burgueses ficariam cada vez mais ricos e os proletários, cada vez mais pobres. Pelo contrário, como explicou Margaret Thatcher (cujo sobrenome sugere ascendência em servos trabalhadores que produziam telhados tradicionais de palha) em pronunciamentos clássicos no Parlamento britânico, todas as classes subiram.
Haddad quer dobrar a aposta: “Se os socialistas estiverem certos, em tempos de capitalismo superindustrial, agora turbinado pela extrema direita e pela inteligência artificial, a tendência ao aumento da desigualdade entre nações, de um lado, e entre classes sociais, de outro, mantida a dinâmica atual, deve se tornar ainda mais aguda, e as contradições inerentes ao processo devem reavivar os anseios por uma profunda transformação das relações sociais”, disse ele no parágrafo final do livro.
Que pena, então, que os socialistas estão errados. A previsão, assim como a de seu herói inconfessado Marx, vai falhar mais uma vez. Porque os princípios básicos da economia são diversos daqueles em que insistem os socialistas.
O que não tem no livro do Haddad: economia mais científica continua a refutar o igualitarismo socialista
Consideremos brevemente um trabalho bem-feito em economia que jamais apareceria nas páginas dos livros de Haddad.
Em 2021, os economistas Justin Callais, do Instituto Archbridge (um think tank de Washington, D.C.), e Vincent Geloso, da Universidade George Mason, publicaram um artigo em que testaram a relação entre a mobilidade de renda e a liberdade econômica. Ou seja, buscaram saber se a medida à qual é possível “subir na vida” em uma sociedade tem algo a ver com o quanto ela é “capitalista”, como colocaria Haddad.
A resposta: “descobrimos que o componente do sistema legal e dos direitos de propriedade da liberdade econômica é mais importante que a desigualdade” para explicar a mobilidade. Isso significa que, se você quer que as pessoas tenham melhores chances de enriquecer entre gerações, a melhor alternativa é o sistema que favorece a liberdade econômica, não a obsessão em combater a desigualdade. É o capitalismo, não o socialismo.
Note: isso não é uma mera opinião de Callais e Geloso. Eles usaram evidências de qualidade e modelos matemáticos plausíveis. Primeiro, confirmaram que a liberdade econômica aumenta as rendas. Depois, mostraram que renda mais alta sob essas condições está associada à menor persistência de renda, ou seja, maior mobilidade, maior probabilidade de mudar de classe social.
Que o capitalismo enriquece a todas as classes já é sabido há muito tempo, foi o que os Estados Unidos esfregaram na cara da União Soviética. O que o estudo ajuda a mostrar é que, ainda que não haja crescimento econômico, há mais mobilidade social quando os indivíduos são mais livres para decidir o que fazer com seu dinheiro e sua força produtiva.
As pesquisas continuaram. Em outubro de 2023, Callais e Geloso, também acompanhados por Alicia Plemmons, da Universidade da Virgínia Ocidental, publicaram um relatório dando mais um detalhe: a liberdade econômica é mais importante, para a mobilidade social, inclusive, do que o capital social.
No Brasil, há a velha piada de que o que importa no país para se dar bem é o “QI”, que no caso é sigla para “quem indica”. Essa é a ideia por trás de capital social. Se você se cansou do efeito do “QI”, defenda mais liberdade econômica no Brasil: mais ênfase na proteção dos direitos de propriedade (em vez de invencionices como “função social da propriedade” que colocaram até na Constituição), mais segurança jurídica para reforçar contratos, e menos pessoas como Lula e Haddad extorquindo impostos da população.
O livro do Haddad, assim como sua gestão da economia brasileira nos últimos três anos, já estavam mofados no momento de seu lançamento. São exemplos de retrocesso fantasiado de “progresso”. O Brasil precisa virar a página.





