Neste momento poços estão sendo desligados, a produção encolhe rapidamente e o volume extraído já não encontra rotas de saída
A Venezuela está à beira de um colapso energético. O setor de petróleo, responsável por sustentar a economia nacional por décadas, opera hoje sob risco de paralisação quase total. Os impactos podem recair sobre receitas, abastecimento interno e estabilidade política, conforme relata o El Nacional.
Esse cenário se consolidou depois da detenção do ditador Nicolás Maduro, no sábado 3, e da instalação de um governo interino em consonância com os Estados Unidos (EUA). Desde então, a estatal Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA), cujo site passa por instabilidade, iniciou uma redução forçada de suas atividades.
Neste momento, poços estão sendo desligados, a produção encolhe rapidamente e o volume extraído já não encontra rotas de saída nem capacidade de estocagem disponível.
O bloqueio naval e comercial imposto pelo governo Donald Trump interrompeu, na prática, as exportações de petróleo. Levantamentos da TankerTrackers.com (empresa de rastreamento marítimo sediada nos EUA) indicam que mais de 17 milhões de barris permanecem imobilizados em navios-tanque. Têm sido utilizados como depósitos improvisados em alto-mar, enquanto os embarques ao exterior foram praticamente zerados.
“É possível interpretar a política de Donald Trump para a Venezuela como uma estratégia de coerção orientada por objetivos econômicos e geopolíticos, especialmente relacionados ao controle e à reorganização do setor petrolífero”, afirma a Oeste o economista Luis Carlos Burbano Zambrano, da Universidad del Valle, na Colômbia.
O petróleo, ao longo de décadas, foi responsável por algo entre 90% e 95% de toda a receita obtida com exportações. Representa cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O produto sustenta a maior parte do orçamento estatal, com participação estimada em cerca de 58% da arrecadação do governo em 2024.
As exportações petrolíferas são responsáveis pela esmagadora maioria das receitas externas da Venezuela, geralmente estimadas entre 90% e 95% do total exportado, segundo levantamentos de instituições como EBSCO, The New York Times e Britannica.
Em relação à produção, a atividade petrolífera é responsável por aproximadamente um terço do Produto Interno Bruto venezuelano, segundo o Council on Foreign Relations e da Investopedia.
A crise atual não se limita à logística. A PDVSA ainda enfrenta sérias dificuldades operacionais depois de um ataque cibernético de grandes proporções ocorrido em dezembro, que comprometeu sistemas internos e dificultou a coordenação das poucas operações que seguem ativas.
Até recentemente, as operações da Chevron (multinacional norte-americana de petróleo) funcionavam como a última válvula de escape para o petróleo venezuelano, amparadas por autorizações especiais concedidas por Washington.
De acordo com a agência Reuters, esse fluxo representava o único envio regular de petróleo ao exterior. Dados de navegação, no entanto, mostram que desde a última quinta-feira esses carregamentos também foram interrompidos.
Exportações de petróleo da Venezuela
Mesmo sustentando que segue operando dentro das normas legais, a Chevron enfrenta um gargalo crítico. Os estoques acumulados em projetos como Petroboscán e Petropiar, em parceria entre Chevron e PDVSA, atingiram o limite, criando pressão para cortes iminentes na produção, independentemente da continuidade formal das licenças.
A decisão da PDVSA de reduzir a extração já afeta diretamente empresas mistas com participação estrangeira. Na Sinovensa, joint venture com a chinesa CNPC, trabalhadores se preparam para desligar até dez conjuntos de poços, pressionados pelo excesso de petróleo extrapesado e pela falta de diluentes.
Na Petromonagas, a produção sofreu uma queda abrupta depois da interrupção do fornecimento de nafta e petróleo leve, insumos indispensáveis que a Venezuela importava, principalmente da Rússia, e que agora deixaram de chegar ao país em razão do embargo.
No sábado, Trump comentou a política adotada contra Caracas: “O embargo petrolífero está em plena vigência.” Ele ressaltou que a medida busca estrangular financeiramente qualquer estrutura que tente sustentar o antigo regime.
À frente do Ministério do Petróleo e da presidência interina, Delcy Rodríguez enfrenta um ambiente de extrema fragilidade. As exportações, que alcançavam cerca de 950 mil barris por dia em novembro, entraram em completo impasse em janeiro. A queda abrupta das receitas limita a capacidade do governo de manter a estabilidade interna e compromete o abastecimento doméstico de combustíveis.
Sem navios atracando no terminal de Jose para o carregamento de petróleo, analistas do setor alertam que o impacto tende a se espalhar rapidamente. As refinarias nacionais devem ser as próximas a sentir os efeitos da paralisação, aprofundando a escassez de gasolina em todo o território venezuelano nos próximos dias.





