Flávio Bolsonaro supera Lula em destaque nas redes sociais

Crescimento do senador no ambiente digital coincide com empate técnico nas pesquisas para um eventual segundo turno

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem conquistado terreno no ambiente digital. Desde que anunciou sua pré-candidatura à Presidência da República, ele tem registrado crescimento nas redes sociais superior ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O petista, em discursos recentes, demonstrou certa resistência ao universo digital: já afirmou diversas vezes não possuir telefone celular e costuma criticar o uso constante do aparelho, prática hoje disseminada entre os brasileiros.

Para especialistas ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo, esse tipo de crítica à dependência tecnológica pode criar distanciamento em relação ao eleitorado. Ao mesmo tempo, o avanço de Flávio nas redes ocorre em um contexto em que pesquisas indicam empate técnico entre o senador e Lula em um eventual segundo turno.

Levantamento feito pela consultoria de dados Bites, a pedido da Folha, comparou semana a semana a chamada “tração” dos principais nomes políticos nas redes sociais entre 2022 e 2026. Além de Flávio e Lula, o estudo incluiu o ex-presidente Jair Bolsonaro, que dominava o ambiente digital quando estava no poder.

Direita percebe melhor o poder das redes sociais, diz consultoria

No jargão do marketing político, “tração” é a capacidade de um perfil crescer de forma consistente nas redes, medida pelo volume de interações — curtidas, comentários e compartilhamentos.

Em 2022, Bolsonaro mantinha ampla vantagem sobre os demais. Sua vitória eleitoral quatro anos antes foi atribuída, entre outros fatores, à forte estrutura digital da campanha.

Segundo André Eler, diretor técnico da Bites, a direita percebeu antes o potencial político das plataformas. “A direita apostou primeiro nas redes, enquanto a esquerda demorou a reconhecer a relevância desse espaço”, afirma.

Depois da eleição de 2022, houve uma breve inversão. O entusiasmo gerado pela vitória de Lula levou o petista a superar Bolsonaro nas redes por cerca de seis semanas. A liderança do ex-presidente, porém, logo voltou — e só foi interrompida em agosto de 2025, quando ele passou a cumprir prisão domiciliar e ficou incomunicável.

Nesse período, Lula passou a adotar uma estratégia digital mais estruturada, sob coordenação do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Em 2025, o petista superou os dois adversários por 15 semanas no indicador de tração.

Flávio Bolsonaro, que até então tinha presença mais modesta nas redes, começou a ganhar espaço ao se tornar um dos principais porta-vozes dos aliados de seu pai. A tendência se consolidou em dezembro, quando Jair Bolsonaro anunciou o filho como candidato.

Em 2026, até agora, o senador liderou a tração digital em sete semanas, enquanto Lula ficou à frente em apenas uma. Em número total de seguidores, Lula ainda mantém vantagem.

Porém, o crescimento de Flávio é mais acelerado: desde dezembro, ele ganhou cerca de 3,4 milhões de novos seguidores, contra 378 mil do presidente. “Os índices de crescimento de Flávio já se aproximam dos que Bolsonaro tinha no auge, falando em nome da família e com grande volume de publicações”, afirma Eler.

Aliados do senador atribuem o avanço ao interesse do público em conhecer o herdeiro político escolhido por Bolsonaro, e não necessariamente a uma mudança na linguagem usada nas redes. Para esse grupo, o objetivo agora é consolidar a imagem de Flávio como um líder capaz de representar o país.

Nesse contexto, os perfis do senador passaram a destacar agendas internacionais. Vídeos e fotos mostram viagens e encontros com líderes estrangeiros. Na semana passada, por exemplo, ele apareceu durante conversa em espanhol com o presidente da Argentina, Javier Milei, durante a posse do novo presidente do Chile, José Antonio Kast.

Pesquisa mostra Lula e Flávio em empate técnico no 2º turno

Pesquisa do Datafolha revela que Lula lidera o primeiro turno, com 38% das intenções de voto, contra 32% de Flávio. Em um eventual segundo turno, entretanto, os dois aparecem tecnicamente empatados: o petista tem 46% e o senador, 43%.

O desempenho digital do filho de Bolsonaro contrasta com o tom adotado por Lula em relação ao uso da tecnologia. Em diversos discursos, o presidente critica o que considera dependência excessiva de dispositivos eletrônicos.

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Instituto mostra a evolução de Flávio Bolsonaro em eventual briga com Lula no 2º turno | Foto: Reprodução/Paraná Pesquisas

Durante a inauguração de um centro médico no Rio de Janeiro, por exemplo, Lula sugeriu que as pessoas “façam um cafuné” no parceiro ao acordar, em vez de verificar imediatamente o celular.

Em participação no podcast Mano a Mano, apresentado pelo rapper Mano Brown, Lula afirmou que o uso constante do celular tem enfraquecido a vida em comunidade e estimulado comportamentos mais individualistas.

Para a especialista em marketing digital Mariana Bonjour, esse tipo de discurso pode afastar parte do eleitorado. “O presidente acaba se distanciando do cotidiano das pessoas, abrindo espaço para que outro candidato ocupe esse lugar”, avalia.

Ela afirma que houve avanços na comunicação digital do governo, mas as redes de Lula ainda funcionam sobretudo como extensão do noticiário tradicional, sem desenvolver linguagem própria. “Não há dinheiro ou equipe que substitua a presença direta do candidato”, afirma. “Autenticidade não se terceiriza.”

As publicações do presidente, segundo ela, costumam ter alto nível de produção, mas carecem da espontaneidade típica das redes. Um exemplo citado é um vídeo gravado na Bahia, em fevereiro, no qual Lula acompanha uma consulta de telessaúde do programa Agora Tem Especialistas.

O tom didático da gravação, segundo analistas, transmite a impressão de que a cena foi ensaiada.

No caso de Flávio, a dinâmica costuma ser diferente. Ele frequentemente grava vídeos com o próprio celular e fala diretamente com os seguidores. Em uma postagem recente, por exemplo, pediu orações pelo pai, internado na UTI com broncopneumonia.

No terceiro mandato, Lula também criticou as grandes empresas de tecnologia e enviou ao Congresso projetos para regulamentar as redes sociais no Brasil. Em viagem à Índia no mês passado, defendeu ainda a criação de regras para o uso da inteligência artificial.

Crédito Revista Oeste

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