Atual vice-presidente rompeu com grupo de magistrado; associados tem sido pressionados a dar procuração para aliados de Gilmar votarem em nome dele
Em meio à crise criada pelas revelações do Banco Master envolvendo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e Alexandre de Moraes no caso, o decano da Corte, Gilmar Mendes, tem lidado com um racha inesperado no instituto fundado por ele em Portugal. A apresentação de uma candidatura de oposição surpreendeu o magistrado e frustrou as expectativas de uma recondução meramente formal da atual cúpula.
O Fórum de Integração Brasil Europa (Fibe) foi criado em janeiro de 2021 por Gilmar e integrantes do Instituto Brasileiro de Ensino, Brasileiro e Pesquisa (IDP), instituição de ensino superior fundada pelo ministro e atualmente comandada por um de seus filhos. No mundo jurídico não é segredo que a entidade, na prática, atua como um braço do IDP em Portugal para captar patrocínios.
Desde então, o instituto sediado em Lisboa é presidido pelo português Vitalino Canas. O vice-presidente é José Roberto Afonso, economista professor do IDP e até então aliado próximo de Gilmar, e o diretor-executivo é Eduardo Jorge Caldas, ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Afonso, porém, resolveu romper com a gestão e apresentar uma chapa de oposição que defende uma reforma estatutária e a transformação do Fibe em um think tank. A disputa ocorrerá na assembleia-geral do fórum marcada para a manhã desta quinta-feira.
Procurado, Afonso não respondeu às nossas mensagens. Gilmar também não retornou o contato. O espaço segue aberto.
Após a publicação da reportagem, o grupo alinhado ao ministro do Supremo foi reeleita com 230 votos. Já a chapa divergente liderada por Afonso recebeu 73 votos. Houve também seis abstenções. O mandato da nova gestão será de quatro anos.
O movimento de cisão gerou um rebuliço no entorno do decano do STF, que contava com um processo eleitoral “pró-forma”, e acusa Afonso de tentar capturar um projeto coletivo para si. Em reação, o grupo de Gilmar montou uma força-tarefa para garantir que os mais de 300 associados votem pela reeleição da chapa de continuidade.
De um lado, aliados próximos do ministro e também integrantes do Fibe, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Luis Felipe Salomão, endossaram publicamente a recondução do grupo alinhado a Gilmar. Gonet também é fundador do IDP, do qual foi sócio até 2017, e professor da instituição ao lado de Salomão. Uma carta assinada por eles foi enviada pelo e-mail institucional do Fibe aos associados.
De outro, integrantes que não poderão votar presencialmente na assembleia-geral em Lisboa ou virtualmente estão sendo pressionados a assinar procurações para autorizar outros juristas a votarem em nome deles para garantir quórum favorável à chapa de Gilmar. A equipe da coluna teve acesso a algumas delas.
Gilmarpalooza
A briga renhida do outro lado do Atlântico passa longe de uma disputa entre acadêmicos, contudo.
O Fibe participa da organização do congresso jurídico promovido anualmente por Gilmar em Portugal, o Fórum de Lisboa, que ficou conhecido como Gilmarpalooza por reunir na capital europeia autoridades dos Três Poderes, lobistas, empresários e advogados com causas nas Cortes Superiores e também pelos eventos paralelos em endereços badalados e luxuosos do país.
Em entrevista à BBC News Brasil em novembro de 2025, o próprio Gilmar admitiu que o Gilmarpalooza é financiado por diversas instituições, entre elas o Fibe, descrito por ele como um “think tank” – embora José Roberto Afonso diga pretender transformar o fórum em um na sua campanha.
No seu site, a entidade se apresenta como uma “associação sem fins lucrativos que tem o propósito de fomentar debates, eventos e estudos para promover a aproximação cultural, econômica e social do Brasil com a Europa – em especial com Portugal e demais países da comunidade de países de língua portuguesa” guiado pelos valores da “adesão à democracia e à liberdade de expressão, respeito pelo pluralismo de opiniões e a crença e valorização do debate qualificado de ideias”.
Além do próprio IDP da família Mendes, o Fibe tem entre seus patrocinadores companhias de peso como a Vale e entidades como o Sebrae, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), a Frente Nacional de Prefeitos, a Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).
Há também instituições acadêmicas como a FGV, as Universidades de Lisboa e de Coimbra e o Centro Científico e Cultural de Macau, ex-colônia portuguesa na China, além de think tanks como o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Formalmente, Gilmar integra o conselho consultivo do Fibe ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de Jorge Carlos Fonseca, que comandou o lusófono Cabo Verde entre 2011 e 2021.
Ex-advogado-geral da União no governo FH, Gilmar também recrutou outros integrantes da gestão tucana como Eduardo Jorge, que chefiou a Secretaria-Geral da Presidência e agora concorre como vice na chapa de continuidade, e Alexandre Bundek, que integrou o Banco Central no período de Armínio Fraga.
A página informa que a inclusão de novos associados ocorre por meio de convite, mas é possível enviar um e-mail manifestando interesse.
Entre as atividades acadêmicas informadas está o “Prêmio Fibe”, organizado anualmente pelo instituto de Gilmar com o objetivo de premiar as melhores dissertações de mestrado e teses de doutorado que tratem sobre “a integração cultural, econômica, social, bem como as ligações históricas, políticas e jurídicas entre Brasil e Europa, especialmente com Portugal, além dos demais países lusófonos”.
O prêmio é de 6 mil euros, ou R$ 36,8 mil na cotação atual.
Há ainda registros de debates e workshops sobre temáticas variadas como “o declínio do Poder Real português”, “revolução digital e democracia” e o “futuro da tributação” em eventos digitais ou organizados em Lisboa, Porto, Madri e Macau.





