Levantamento mostra que 7 de cada 10 salários ultrapassam o limite legal
Relatórios revelam que a maioria dos servidores do Tribunal de Contas da União (TCU) recebe remuneração além do teto constitucional do serviço público, fixado em R$ 46,3 mil. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo jornal Folha de S.Paulo mostram que, entre dezembro de 2023 e 2025, o órgão destinou R$ 55 milhões a pagamentos que excederam esse limite, incluindo casos de salários que chegaram a R$ 264 mil em um único mês.
No recorte analisado, pelo menos 156 auditores e técnicos, ou 10% do total de funcionários, tiveram vencimentos superiores a R$ 80 mil. Esses valores englobam adicionais como diárias, ajudas de custo e verbas indenizatórias, que não se enquadram no teto e são isentas de Imposto de Renda, o que fez o com que alguns salários atingissem R$ 221 mil.
Benefícios e remunerações no exterior
Entre os maiores beneficiados estão três representantes do TCU no conselho de auditores da ONU, em Nova York. Um deles, Mauricio de Albuquerque Wanderley, diretor de auditoria externa, recebeu remuneração média mensal de R$ 187 mil entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025. Antes de assumir o cargo nos Estados Unidos, Wanderley foi chefe de gabinete do ministro Bruno Dantas, ex-presidente do TCU, que indicou o servidor para a função internacional.
Funcionários do tribunal em cargos comissionados, como Wanderley, têm direito a receber até US$ 623,61 por dia em viagens ao exterior. Em 2024, as diárias estavam fixadas em US$ 440. No mês de dezembro, quando o dólar atingiu R$ 6, Wanderley obteve R$ 80,6 mil em “outros auxílios”, sugerindo pagamento de diárias contínuas para residência nos EUA, prática vedada por norma do TCU para afastamento permanente.
Segundo o perfil de Wanderley em rede social profissional, ele reside nos Estados Unidos desde julho de 2024. Em nota, o TCU afirmou que “valores pagos a título indenizatório não estão sujeitos ao teto, por não terem caráter remuneratório”, e que a prática segue a legislação vigente, segundo a fonte da matéria.
O tribunal também ressaltou que cumpre as normas sobre remuneração de servidores no exterior e considera diárias como indenização por despesas no exercício das funções. Os dados divulgados não incluem gratificação natalina, o 13º salário, que pode ultrapassar o teto. Além do salário-base de R$ 144 mil, Wanderley recebe auxílios mensais de R$ 74 mil, valor que, segundo o TCU, inclui ressarcimento de aluguel diretamente no contracheque.
Supersalários no Brasil e impacto de novas regras no TCU
Outros dois auditores na ONU, Tiago Alves de Gouveia Lins Dutra e Ana Paula Sampaio Silva Pereira, também figuram entre os mais bem remunerados, com médias mensais de R$ 160 mil e adicionais de R$ 52 mil em “outros auxílios”. Os vencimentos de servidores em missão no exterior são definidos por lei e variam conforme o cargo e a localidade, que podem ultrapassar o teto nacional pelo critério de paridade de poder de compra (PPC).
Apesar disso, as cifras desses servidores do TCU superam as de outras autoridades brasileiras nos Estados Unidos. A embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, por exemplo, recebeu cerca de R$ 100 mil mensais em 2025, incluindo verbas indenizatórias. Considerando o PPC estimado pelo FMI, a remuneração da embaixadora equivale ao teto constitucional, enquanto Wanderley alcança cerca de R$ 87,9 mil mensais, quase o dobro.
O levantamento mostra ainda que há supersalários também entre os servidores sediados no Brasil. Elaine Souza Ferreira Dantas, chefe de gabinete da presidência do TCU, chegou a receber R$ 103 mil em abril de 2025. O valor resulta da soma de diárias, ajudas de custo, verbas indenizatórias e outros auxílios, com média mensal de R$ 53 mil no período analisado.
Annelise Ayoroa, auditora de controle externo, aparece com salário médio de R$ 47 mil entre 2023 e 2025, acrescido por verbas indenizatórias e diárias, também isentas de Imposto de Renda. O TCU não comentou especificamente os casos dessas duas servidoras.
A possibilidade de aumento nos salários do tribunal pode crescer caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancione projeto aprovado pelo Congresso em dezembro do ano anterior que cria licença compensatória para servidores concursados em cargos comissionados. A proposta prevê direito a um a três dias de licença a cada dez de trabalho, convertíveis em indenização livre de Imposto de Renda e não sujeita ao teto, caso não sejam usufruídos. O impacto financeiro estimado é de R$ 24,5 milhões ao ano.





