Dados enviados pela Receita à CPI do Crime Organizado mostram repasses a bancas ligadas a nomes como Temer, Lewandowski e Rueda
O Banco Master destinou mais de R$ 500 milhões a 91 escritórios de advocacia entre 2022 e 2025, segundo documentos enviados pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado no Senado. A relação inclui algumas das principais bancas do país, sendo que ao menos 15 receberam valores superiores a R$ 10 milhões.
Os dados também apontam pagamentos a figuras públicas, como o ex-presidente Michel Temer, o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e os ex-ministros Guido Mantega e Ricardo Lewandowski. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
As despesas com advocacia cresceram ao longo do período. Em 2022, o banco declarou R$ 40,1 milhões em gastos; em 2023, R$ 56,8 milhões.
Já em 2024, quando a Polícia Federal iniciou investigações contra o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, os valores saltaram para R$ 183,7 milhões. Em 2025, sob maior pressão de autoridades e durante negociações com o BRB, os pagamentos chegaram a R$ 262,4 milhões.
O maior repasse foi destinado ao escritório Barci de Moraes — do qual faz parte a mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Viviane —, que recebeu R$ 80,2 milhões entre 2024 e 2025. Em nota, a banca afirmou não confirmar “informações incorretas e vazadas ilicitamente” e ressaltou o sigilo fiscal.
Na sequência aparecem dois escritórios do grupo Monteiro, Rusu, Cameirão e Bercht, com R$ 79,1 milhões no período. A banca contestou os números e declarou ter enfrentado inadimplência do banco, além de afirmar ter atuado em cerca de 28 mil processos, com redução superior a R$ 305 milhões em passivos.
Também figuram entre os maiores beneficiários escritórios ligados ao advogado Walfrido Warde, que somaram R$ 76,6 milhões entre 2022 e 2025. A banca afirmou observar o sigilo profissional. Warde atuou na defesa de Vorcaro até janeiro deste ano e foi citado por investigadores como articulador de estratégias jurídicas para tentar reverter a liquidação do banco.
Mensagens apreendidas revelam que, horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em novembro, o advogado teria afirmado a ele: “Estamos infernizando ele”, em referência a um juiz federal de Brasília. A defesa sustenta que não teve acesso prévio à ordem de prisão.
O escritório Gabino Kruschewsky Advogados Associados aparece em quarto lugar, com R$ 54 milhões recebidos no período. A banca informou ter atuado em mais de 45 mil processos e disse que os valores são compatíveis com os de mercado.
Fundador do Master, Daniel Vorcaro negocia acordo de delação
Vorcaro está preso desde a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que resultou na liquidação do Banco Master pelo Banco Central. Ele negocia um acordo de delação premiada.
Os documentos da Receita não detalham a finalidade dos pagamentos, mas revelam que os repasses cresceram durante a estratégia de expansão do banco, marcada pela oferta de Certificados de Depósito Bancário com alta remuneração e pela aproximação com autoridades.
Entre os valores pagos a figuras políticas, o escritório de Michel Temer recebeu R$ 10 milhões — o ex-presidente afirma ter recebido R$ 7,5 milhões. Já a Lewandowski Advocacia obteve ao menos R$ 6,1 milhões desde o fim de 2023.
Escritórios ligados a Antônio Rueda, presidente do União Brasil, receberam R$ 6,4 milhões no período. Rueda afirmou que a atuação é “legítima e compatível com o exercício da advocacia”.





