Agência ligada a Daniel Vorcaro contratou profissionais para criticar o processo de liquidação da instituição financeira
Influenciadores de direita publicaram, de forma coordenada, vídeos em que defendem o Banco Master e criticam a atuação do Banco Central, no contexto do processo de liquidação da instituição financeira.
A articulação ocorreu a partir de 19 de dezembro, um dia depois da publicação de uma reportagem do portal Metrópoles. A matéria informava que o Tribunal de Contas da União (TCU) havia identificado supostos “indícios de precipitação” na atuação do BC. Por isso, a Corte deu prazo de 72 horas para a autarquia se manifestar sobre o assunto.
Estética padronizada
Na mesma data, ao menos três influenciadores publicaram vídeos no formato reel no Instagram, com estética audiovisual semelhante, abordagem convergente e timing quase simultâneo. As postagens, todas usando com a reportagem do Metrópoles como fonte, exaltavam a atuação do TCU, questionavam a legalidade da condução do Banco Central e atribuíam à imprensa tradicional um suposto papel de manipulação narrativa.
Entre os influenciadores que publicaram vídeos com abordagem semelhante estão Marcelo Rennó (cerca de 50 mil seguidores), Firmino Cortada (mais de 2 milhões) e Paulo Cardoso (mais de 4 milhões). O conteúdo de Rennó foi posteriormente repostado pelo jornalista Luiz Bacci, que tem mais de 24 milhões de seguidores.
Oferta de contratos sigilosos
Oeste apurou que um agente de comunicação procurou influenciadores para propor contratos de divulgação de conteúdos políticos e financeiros, com exigência expressa de confidencialidade. As propostas incluiriam contratos de duração mínima de três meses, com valores variáveis conforme alcance e engajamento, que poderiam chegar a cifras milionárias.
Áudios e mensagens obtidos por fontes mostram que, antes mesmo da formalização do acordo, era exigida a assinatura de termos de confidencialidade para que os detalhes do cliente fossem revelados. Em ao menos um caso, a abordagem foi recusada de imediato por um dos influenciadores procurados.
Agência ligada ao Banco Master
O agente responsável pelas abordagens atuaria em nome da empresa Miranda Comunicações, contratada para prestar serviços ao Banco Master. Embora o nome do controlador do banco não conste formalmente nos contratos, Daniel Vorcaro aparece identificado como “o cliente” em comunicações privadas com influenciadores.
Em publicações abertas nas redes sociais, o influenciador Firmino Cortada aparece listado como cliente da Miranda Comunicações, responsável pela prospecção de influenciadores a serviço do Banco Master. Além disso, vídeos já publicados por alguns influenciadores foram encaminhados pelo próprio agenciador a novos potenciais contratados, para que adotassem o mesmo estilo em futuras publicações. Paulo Cardoso, Marcelo Rennó, André Dias e Carol Dias foram os exemplos listados pelo agenciador.
As cláusulas contratuais
A reportagem teve acesso a um dos contratos firmados. Embora o documento afirme, formalmente, garantir liberdade editorial ao influenciador, a leitura sistemática das cláusulas revela mecanismos que põem em xeque essa autonomia.
Entre os pontos destacados estão: obrigação de seguir diretrizes e materiais de pauta fornecidos pela contratante; exigência de validação prévia do conteúdo antes da publicação; possibilidade de substituição de pautas em caso de “divergência editorial relevante”; e cláusulas amplas de confidencialidade, com multa de até R$ 1 milhão em caso de descumprimento.
Riscos jurídicos
Juristas consultados por Oeste explicam que, do ponto de vista jurídico, a contratação de influenciadores ou comunicadores não é ilegal em si. No entanto, a ausência de identificação clara de conteúdo patrocinado pode configurar publicidade enganosa por omissão, em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor e com as regras das próprias plataformas digitais.
No caso de jornalistas, a prática pode violar o Código de Ética da categoria, que proíbe subordinar a informação a interesses econômicos e exige a revelação de conflitos de interesse relevantes.
Além disso, plataformas como Instagram, YouTube e X determinam expressamente que conteúdos pagos devem ser identificados como publicidade ou parceria patrocinada. A ocultação deliberada desse vínculo pode resultar em sanções administrativas, além de ampliar a responsabilização civil e, em cenários extremos, penal.
Oeste indagou o Banco Master, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
A reportagem também procurou Firmino Cortada, que confirmou ter recebido a proposta da agência ligada a Daniel Vorcaro, mas negou vínculo com o Banco Master. “Todas as minhas postagens são autênticas, realizadas de forma independente, sem interferência, orientação ou contraprestação de terceiros”, disse o influenciador.
Carol Dias respondeu às perguntas de Oeste e negou qualquer contrato com a agência. A reportagem ainda tenta contato com Paulo Cardoso e Marcelo Rennó.





