O destino dos herdeiros políticos: o que acontece com a família de um ditador deposto

O ditador venezuelano Nicolás Maduro, que comandou a Venezuela por mais de uma década, amanheceu no último domingo (4) em uma prisão de Nova York, sob acusação de narcotráfico e outras violações. Em Caracas, um dia antes, Delcy Rodríguez foi declarada presidente interina pelo Tribunal Supremo de Justiça do país, com apoio da cúpula militar remanescente.

Presa com ele está a primeira-dama Cilia Flores, que chegou a empregar mais de 40 parentes quando presidiu a Assembleia Nacional – um caso flagrante de nepotismo, que ela própria não negava. “Estou orgulhosa de que sejam minha família”, chegou a declarar, diante das críticas.

Historicamente, ditaduras personalistas costumam se sustentar não apenas na figura do líder, mas também em parentes que concentram riqueza e poder em torno dele. Cônjuges, filhos, irmãos, genros e sobrinhos frequentemente ocupam cargos-chave, acumulam fortuna e se projetam como herdeiros informais do regime.

Essa infraestrutura familiar serve como blindagem política, facilitando o controle sobre outros Poderes e ajudando a garantir lealdade no aparelho burocrático do Estado e nos cargos de elite. Quando o regime cai, porém, toda essa rede de parentes e associados é a primeira a ficar exposta.

Os destinos de herdeiros políticos de ditaduras após a queda variam conforme o contexto. Alguns clãs conseguem se reinventar ao longo do tempo, até convertendo a notoriedade do sobrenome em capital político; outros são rapidamente destruídos.

Nas Filipinas, filho de ditador deposto em 1986 é o atual presidente

Nas Filipinas, a família Marcos é um exemplo emblemático de retorno à vida política. Deposto em 1986 por uma revolta popular, o ditador Ferdinand Marcos fugiu para o exílio no Havaí com a esposa, Imelda, e os filhos, deixando para trás diversas evidências de riqueza ilícita.

O governo democrático que sucedeu Marcos confiscou parte dos bens do clã e abriu processos por corrupção, mas nem todo o patrimônio foi recuperado. Já nos anos 1990, os Marcos conseguiram retornar ao país e, gradualmente, reconstruíram sua influência: Imelda e a filha Imee elegeram-se para o Parlamento, e o filho Ferdinand Marcos Jr., conhecido como Bongbong Marcos, ascendeu a governador e senador.

Em 2022, Bongbong conquistou a presidência filipina com quase 60% dos votos, marcando o retorno da família ao poder 36 anos após a queda do patriarca. A reabilitação eleitoral foi possível por meio de alianças políticas e da mudança geracional do eleitorado, que tinha pouca memória direta do período ditatorial.

Na Tunísia, herdeiros de ditador perderam rapidamente seu poder

Em contraste, alguns herdeiros de ditadores enfrentam reação imediata e implacável, tornando-se fugitivos ou réus assim que o antigo chefe perde o poder, e sendo neutralizados antes de qualquer possibilidade de retorno.

Quando o tunisiano Zine El Abidine Ben Ali fugiu do país, em janeiro de 2011, após semanas de protestos, seu círculo familiar tornou-se logo alvo da Justiça. Nos dias seguintes à queda, dezenas de familiares do ex-ditador foram detidos sob acusação de crimes contra a pátria.

A TV estatal exibiu joias de ouro e pedras preciosas apreendidas com esses parentes. O governo de transição confiscou empresas, imóveis, carros de luxo e contas ligadas à família Ben Ali–Trabelsi, que somavam bilhões de dólares em bens apreendidos, de acordo com agências internacionais. Tribunais condenaram o ex-presidente, sua esposa e diversos parentes por corrupção, desvio de verbas e repressão violenta. As sentenças tiveram efeito sobretudo simbólico, já que todos estavam exilados na Arábia Saudita.

Parte dessas medidas enfrentou revisões judiciais. Em 2015, uma corte tunisiana chegou a anular o decreto de confisco de bens de 114 pessoas ligadas ao regime ditatorial, decisão que gerou controvérsia no país. Ainda assim, politicamente o clã Ben Ali foi desmantelado. Nenhum parente retomou influência na nova Tunísia democrática. Ben Ali morreu em 2019. Seus familiares imediatos, segundo agências de notícias, continuam vivendo na Arábia Saudita.

Filho de Muammar Gaddafi tentou voltar à política

Na Líbia, Muammar Gaddafi havia preparado seus filhos, especialmente Saif al-Islam Gaddafi, para sucedê-lo no comando. A revolução de 2011, porém, encerrou de forma abrupta a dinastia em formação.

Durante os combates que derrubaram Gaddafi, alguns de seus filhos foram mortos por rebeldes ou em confrontos. Outros escaparam por pouco. Saif al-Islam foi capturado por milicianos em novembro de 2011 e chegou a ser condenado à morte em 2015. A milícia que o detinha, no entanto, recusou-se a entregá-lo ao governo central ou ao Tribunal Penal Internacional.

Saif acabou libertado em 2017 e desapareceu da vida pública por alguns anos. Uma década após a queda do pai, ressurgiu tentando uma carreira política: em 2021, registrou sua candidatura à presidência da Líbia. A eleição acabou sendo adiada por causa de disputas internas, e a elegibilidade do herdeiro de Gaddafi foi contestada nos tribunais. Até hoje, em meio à instabilidade política, as eleições nacionais não foram realizadas.

Outros membros do clã preferiram o exílio. Saadi Gaddafi fugiu para o Níger durante a guerra, mas depois foi extraditado para Trípoli e passou anos detido sob acusações que incluíam assassinato e desvio de recursos. Em 2021, foi absolvido e libertado, partindo em seguida para o exílio na Turquia. A viúva de Gaddafi, Safia, e a filha Aisha refugiaram-se em Omã, enquanto outros filhos sobrevivem presos ou exilados.

Alguns familiares de ditadores depostos optam por viver fora dos holofotes

Há também casos em que os familiares de ex-ditadores se afastam da política, mas desfrutam da riqueza acumulada. A dinastia Somoza, da Nicarágua, foi encerrada em 1979 e praticamente desapareceu do cenário político. Anastasio Somoza, o último ditador, foi assassinado no exílio no Paraguai no ano seguinte à sua deposição, e seus descendentes jamais retomaram relevância nacional.

No Zimbábue, após Robert Mugabe ser forçado a renunciar em 2017, a ex-primeira-dama Grace Mugabe chegou a ser apontada como sua potencial sucessora, mas acabou se recolhendo à vida privada, mantendo seu patrimônio e um estilo de vida luxuoso de acordo com vários veículos de comunicação.

Clã de Maduro pode fugir para países como Rússia e Cuba

Por enquanto, não há confirmação oficial sobre o paradeiro de outros integrantes do círculo familiar de Maduro. O filho do ditador, o deputado Nicolás Maduro Guerra, conhecido como “Nicolasito”, está fora de vista desde a operação, mas um áudio atribuído a ele foi divulgado neste domingo.

“Eles não nos verão fracos. O presidente Nicolás Maduro vai voltar. Ele vai voltar”, afirma Nicolasito no áudio. “Vamos às ruas, vamos convocar o povo, vamos nos unir, vamos formar um núcleo em torno do nosso mais alto comando político-militar com máxima unidade”, acrescenta.

Familiares e figuras do alto escalão chavista – como generais, dirigentes do partido e empresários ligados ao regime – podem tentar fugir para países aliados. Antes da queda, chegou-se a cogitar que nações como Turquia, Rússia, Irã ou Cuba serviriam como destinos de asilo para Maduro e sua família em caso de uma saída negociada. Com o líder já capturado, esses mesmos países podem atrair membros do chavismo que buscam evitar prisões.

Crédito Gazeta do Povo

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