Alban apontou que a proposta de extinguir a escala de trabalho 6×1 não é adequada ao atual contexto de pleno emprego, baixa produtividade e elevado gasto público
A expectativa de aumento acentuado dos gastos públicos em 2026, motivados pelo cenário eleitoral, pode gerar uma crise fiscal em 2027, de acordo com avaliação do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban. Em entrevista ao jornal O Globo, ele criticou decisões recentes do governo federal, classificando-as como “irracionalidades populistas”, além de destacar que a polarização política prejudica o debate nacional e dificulta consensos.
Alban apontou que a proposta de extinguir a escala de trabalho 6×1 não é adequada ao atual contexto de pleno emprego, baixa produtividade e elevado gasto público. Segundo ele, discutir mudanças nesse momento não é coerente, já que o país opera com uma jornada de 5,5×1,5, totalizando 44 horas semanais. Para o dirigente, a produtividade estagnada e o impacto sobre a folha de pagamento tornam a discussão inoportuna.
Controvérsias sobre incentivos fiscais e gastos públicos
A CNI tem insistido para que o governo vete trechos do projeto de lei que prevê a redução de incentivos fiscais em 10%. Entretanto, o Executivo defende a medida como necessária para equilibrar as contas públicas. “Acho pouco provável que o presidente Lula vete esses pontos, já que o projeto é uma decisão política do governo”, afirmou. “Não fizemos isso para advogar em causa própria, é por todo o contexto injusto do próprio projeto. O governo alega que esse projeto é necessário para fechar as contas de 2026. Por que essa conta nunca é fechada do lado da despesa? Nunca. É o primeiro equívoco. Em qualquer orçamento, desde o familiar até o de qualquer empresa, a primeira coisa que se olha é o que está pesando na despesa, porque a elasticidade da curva de receita é muito pequena. Em uma economia de mercado, a primeira coisa para ajustar um orçamento é olhar as rubricas de despesa. Mais uma vez, o Brasil não olha.”
Sobre o corte linear de benefícios fiscais, Alban argumentou que a medida pode prejudicar setores essenciais enquanto mantém incentivos que poderiam ser revistos. Para ele, “não existe racionalidade tributária nisso” e tratar setores distintos de maneira igual é um equívoco.
O presidente da CNI ainda destacou que a estratégia de tributar os chamados “super ricos” pode, na prática, atingir principalmente profissionais liberais e a classe média, e não o público-alvo original. Quanto aos juros sobre capital próprio, Alban defendeu a discussão de uma tributação justa e questionou privilégios de determinadas categorias do funcionalismo público.
Críticas da CNI ao ciclo de juros e à produtividade
Em relação ao ciclo de juros, Alban avaliou que o Banco Central já deveria ter iniciado a redução da taxa Selic. “Nada justifica 10% de juro real, sem falar no spread bancário. Com a economia que o Brasil tem, uma economia dinâmica, não tem justificativa para só perdermos em juros para a Turquia”, defendeu Alban. “O déficit nominal do Brasil é reflexo dos encargos. Existem ferramentas de política monetária além dos juros, como o depósito compulsório.”
Para Alban, o patamar elevado dos juros tem dificultado o consumo, especialmente por causa do aumento do endividamento com empréstimos consignados. Ele relatou que, embora o Banco Central projete um crescimento do PIB de 1,6% em 2026 e a CNI estime 1,8%, ambos os índices seriam os menores desde a pandemia. A desaceleração é atribuída, segundo ele, principalmente ao nível dos juros, porém o estímulo fiscal ainda evita um cenário pior.
O debate sobre o fim da escala 6×1, segundo Alban, é precipitado. “Contra fatos não existem argumentos”, enfatizou. “Eu particularmente acho que nós vamos caminhar em algum momento para uma escala 5×2. Na verdade, hoje no Brasil não existe a escala 6×1. O Brasil adota 5,5×1,5. São 44 horas semanais. Agora, como é que se pode discutir isso (a redução de jornada) se nós temos pleno emprego? Onde é que se vai arranjar mão de obra (se houver redução de jornada)? Em segundo lugar, a produtividade brasileira é ridícula e todos os dados mostram isso. A produtividade está estagnada e nós convivemos e competimos, especialmente no setor industrial, com o mundo. Terceiro, nós estamos falando uma preocupante política fiscal do governo. E qual é o maior item de custo dos gastos públicos? É folha de pagamento. Que discussão maluca é essa? Como é que nós vamos lidar com o déficit fiscal que isso vai gerar? É incabível. Acho que o governo quer que essa discussão fique quicando o ano inteiro, como plataforma eleitoral.”
Segundo o presidente da CNI, a entidade tem mantido diálogo com o governo e com o Congresso, mas percebe que interesses políticos e institucionais predominam nas discussões. Ele relatou que sugeriu uma redução de 10% também nas despesas discricionárias dos três poderes, além dos incentivos fiscais.
Perspectivas para o cenário fiscal e medidas econômicas
Sobre o comportamento fiscal esperado para os próximos anos, Alban avalia que a situação tende a se agravar em 2027, mas que não há sinais de disposição para ajustar gastos em 2026, dada a polarização política do momento. Ele mencionou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como fator de manutenção do clima de divisão.
Questionado sobre a condução da política econômica, Alban foi direto: “Vou ser bem curto e grosso: faltou diálogo com o setor produtivo sobre as medidas que poderiam ser feitas com sugestões dos setores ao longo desse período. Se tivesse mais diálogo, eu acho que a gente tinha encontrado medidas melhores e mais racionais”.





