Servidores do IBGE divulgaram uma carta aberta acompanhada de um abaixo-assinado em que denunciam ações de represália dentro do órgão e pedem apoio público à autonomia institucional, além de mudanças no modelo de escolha da presidência. O movimento intensifica a crise interna com a gestão de Marcio Pochmann, escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no início desde governo sob críticas internas e externas.
De acordo com o documento a que o jornal O Globo teve acesso e que foi confirmado pela Gazeta do Povo, os servidores afirmam que o conflito com a atual gestão se agravou ao longo dos últimos meses, com sucessivas exonerações e pressões internas.
“Não se trata de divergência ideológica. Trata-se da preservação de uma instituição de Estado cuja credibilidade foi construída ao longo de quase nove décadas de compromisso com o rigor metodológico, a neutralidade técnica e o interesse público. O IBGE não pertence a governos. Pertence à República”, diz a carta (veja na íntegra).
A reportagem procurou o IBGE para comentar o manifesto e aguarda retorno.
O texto, de autoria dos próprios servidores, não é ligado oficialmente à entidade de classe da categoria. No entanto, a Assibge-SN afirma que o documento reafirma pontos já levantados em protestos anteriores pela “insatisfação generalizada da categoria”.
“A crescente preocupação dos servidores com as consequências institucionais de uma gestão desastrosa que, embora tenha assumido o comando do IBGE em condições políticas excepcionalmente favoráveis, rapidamente perdeu as condições de conduzir um projeto de fortalecimento institucional à altura das necessidades do país”, afirmou a Assibge-SN em nota à reportagem.
A entidade afirma, ainda, que Marcio Pochmann tem se recusado a receber a representação sindical, aceita apenas colaborações “dentro de seus próprios termos” e, “de forma recorrente, despreza o saber acumulado pelos servidores, alimentando a atual sensação de desrespeito e abandono institucional”.
Segundo o texto do abaixo-assinado, entre os anos de 2023 e 2024, mais de 20 servidores foram retirados dos cargos “de forma mandatória ou por solicitação, devido a discordâncias técnicas e de compliance com a gestão atual”. A carta também menciona novos desligamentos e saídas em 2025, destacando que, em janeiro de 2026, a “ruptura alcançou o núcleo mais sensível da produção estatística brasileira”.
O episódio citado como mais grave envolve a saída da coordenadora de Contas Nacionais, Rebeca Palis, considerada referência técnica, durante o processo de construção da nova base do Produto Interno Bruto (PIB). Para os servidores, o caso simboliza o que classificam como perda de critérios técnicos e aumento de decisões administrativas com viés político.
“O acúmulo desses episódios revela um padrão objetivo: substituições reiteradas de quadros experientes em áreas estruturantes, em momentos sensíveis e sem fundamentação técnica publicamente explicitada. O efeito cumulativo é a fragilização da estabilidade técnica e da memória institucional que sempre distinguiram o IBGE”, pontua.
A carta ressalta que o IBGE tem um papel central na formulação de políticas públicas, sendo responsável por indicadores como o cálculo do PIB, medição da inflação e realização de censos. E que, “se a credibilidade do IBGE é tensionada, fragilizam-se políticas públicas, decisões orçamentárias, relações federativas e a própria segurança jurídica do Estado brasileiro”.
“A credibilidade do IBGE sempre esteve associada não apenas à qualidade metodológica, mas ao controle integral, interno e institucional de seus processos de coleta, tratamento e guarda de informações. Modificar essa lógica exige debate transparente, participação técnica qualificada e garantias inequívocas de preservação da autonomia”, cita o documento.
Em outro trecho, os servidores defendem que a presidência deixe de ser uma indicação direta do presidente da República – como ocorreu com Pochmann – e passe a seguir uma lista tríplice eleita pelos próprios servidores, modelo já adotado em outras instituições públicas.
O abaixo-assinado também menciona a PEC 27/2021, que propõe transformar órgãos como IBGE, Inep, Ipea, Capes e CNPq em instituições permanentes de Estado, com maior autonomia técnica e orçamentária. Para os signatários, a proposta “reflete a compreensão de que a autonomia técnica do IBGE precisa de salvaguarda estrutural”.





