Lula repete discurso e culpa antecessores enquanto obras paradas persistem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem repetido, nesta pré-campanha à reeleição, o discurso utilizado no início do atual mandato para justificar os entraves na infraestrutura. Em 2023, ao lançar o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ele atribuiu a reedição do programa ao enorme passivo de obras interrompidas herdado de governos anteriores. Números do Tribunal de Contas da União (TCU), contudo, contam outra história.

“Quando nós fizemos a transição [de governo], descobrimos que o Brasil tinha 14 mil obras paradas”, afirmou. “Nós estamos num processo, primeiro, de retomar todas as obras que estavam paradas.” E ainda prometeu: “O tempo de obras paradas acabou”.

Três anos depois, o número mudou, mas a justificativa permaneceu a mesma. Em evento realizado em junho deste ano, Lula voltou a afirmar que encontrou “mais de 6 mil obras paradas” ao assumir o governo e atribuiu a situação às “escolhas” feitas por administrações anteriores.

TCU contabiliza 4.215 obras paralisadas na base de abril de 2026


Nos três primeiros anos de gestão, embora o total de empreendimentos federais tenha permanecido praticamente estável — passando de 22.559 obras, em agosto de 2022, para 22.607, em abril de 2025 —, o estoque de obras paralisadas aumentou de 8.674 para 11.469 no período, um crescimento de 32%. Com isso, a participação das obras interrompidas passou de 38,5% para 50,7% do total monitorado pela Corte de Contas.

O painel atualizado pelo tribunal em 30 de julho deste ano passou a mostrar um cenário drasticamente diferente. O TCU contabiliza 22414 obras, das quais 4.215 estão paralisadas. As obras interrompidas correspondiam a cerca de 13% do total. A base tem como referência abril de 2026.

A redução, contudo, não pode ser interpretada simplesmente como a retomada de 7 mil obras. A carteira monitorada pelo TCU passou por mudanças, com entrada e saída de empreendimentos e alterações nas bases de dados.

Segundo o TCU, entre abril de 2025 e abril de 2026, 6.141 obras foram concluídas, enquanto 12.573 novas obras entraram na carteira e outras 6.625 saíram por ajustes. A base atual reúne, portanto, uma composição diferente da anterior. Ainda de acordo com tribunal, mais de 3 mil empreendimentos que estavam paralisados em abril de 2025 continuavam nessa situação um ano depois.

Saúde e Educação concentram paralisações

Educação e Saúde concentram a maior parte desse estoque persistente. Entre as obras que permaneceram paralisadas, 1.861 são da Educação e 671 da Saúde. Juntos, os dois setores representam cerca de 84% desse conjunto.

O painel também registra novas paralisações no período. Na Saúde, foram 399 obras, e na Educação, 205. O TCU faz, porém, uma ressalva: quase 93% das novas paralisações identificadas na Saúde estão relacionadas à Funasa e podem decorrer da mudança no sistema de acompanhamento das obras, e não necessariamente de interrupções recentes.

A atualização mostra ainda que houve avanço na conclusão de empreendimentos. Em uma das obras de maior valor listadas pelo TCU, a duplicação da BR-381, em Minas Gerais, aparece atualmente como concluída, com execução física registrada em 133%. O empreendimento tinha valor de investimento de R$ 530 milhões e R$ 702,9 milhões desbloqueados, segundo a tabela de dados do painel.

Em 2025, 0 TCU identificou R$ 15,9 bilhões já investidos em obras que permanecem paralisadas. O problema também atingia novos contratos: das 5.505 obras iniciadas entre abril de 2024 e abril de 2025, cerca de 1,2 mil (22%) estavam interrompidas em menos de um ano.

Bahia concentra críticas da oposição

Na Bahia, o cenário ainda é de um “esqueleto de obras inacabadas”, segundo o deputado Paulo Azi (União Brasil-BA). Ele cita como exemplos a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), o Estaleiro de Maragojipe, a Ponte Salvador-Itaparica e a duplicação da BR-101, que, segundo ele, o governo “assumiu e não fez 1 km sequer”.

Na avaliação do parlamentar, o problema decorre da falta de prioridade política. “As lideranças do PT da Bahia, pelo fato de sempre estarem vencendo as eleições aqui em função da força do presidente Lula, não se sentem à vontade de exigir aquilo que o estado tem direito”, afirma.

Segundo Azi, “para eles, basta ter o apoio do presidente em todas as eleições. Acham que isso é suficiente para ganhar eleição e não têm autonomia nem vontade política de buscar as realizações”.

O deputado também critica o ministro da Casa Civil, Rui Costa. “Não tem nada que ele tenha trazido de importante para a Bahia”, diz. Azi afirma que a duplicação da BR-101 ficou estagnada na atual gestão e aponta a BR-324 como outro exemplo de abandono.

Segundo ele, após um acordo de cerca de R$ 900 milhões firmado pelo governo federal com a concessionária, a rodovia permanece “abandonada, cheia de buracos” e com “engarrafamentos intermináveis”.

Entraves estruturais travam conclusão das obras

Para o economista Alexandre Manoel, da FGV Ibre, o problema é estrutural e atravessa diferentes governos. “O país tem dificuldade histórica para elaborar projetos de engenharia de qualidade, que acabam sendo produzidos ‘a toque de caixa’ e sem estudos suficientes para antecipar obstáculos técnicos”, diz.

Manoel também aponta a escassez de engenheiros qualificados no setor público. “Os nossos engenheiros bons terminam indo para o mercado financeiro ou para cargos executivos”, afirma. Ele cita ainda a complexidade dos licenciamentos ambientais como outro fator que compromete os cronogramas das obras.

Na mesma direção, o TCU aponta falhas de planejamento, atraso nos pagamentos, deficiência técnica nos estados e municípios e a priorização de novos anúncios em detrimento da conclusão de empreendimentos já iniciados.

A atualização do painel reforça, portanto, que a retomada de obras é um processo que envolve não apenas novos investimentos, mas também a solução de problemas que mantêm empreendimentos antigos fora de execução. Ao mesmo tempo, a mudança na composição das bases do TCU exige cautela na comparação direta entre os estoques de obras paralisadas de diferentes períodos.

Esse ambiente também tem sido acompanhado por órgãos de investigação. Em março deste ano, a Polícia Federal desmembrou em 25 inquéritos a investigação que culminou na operação “Coffee Break”, que apura suspeitas de irregularidades na liberação e no uso de recursos do Ministério da Educação (MEC) e do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) destinados a prefeituras.

As apurações envolvem suspeitas de tráfico de influência, fraude em licitação, superfaturamento e corrupção. Entre os investigados estão Kalil Bittar, ex-sócio de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), e Carla Ariane Trindade, ex-nora do presidente Lula..

Crédito Gazeta do Povo

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