Amiga de Lulinha visitou órgãos do governo Lula mais de 40 vezes

A empresária Roberta Luchsinger, amiga pessoal de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizou pelo menos 42 visitas a órgãos do governo federal entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Desse total, 41 encontros não foram registrados nas agendas oficiais, apesar de a legislação prever a divulgação de reuniões com autoridades públicas.

As visitas foram apuradas pelo Estadão com base em dados oficiais disponibilizados através da Lei de Acesso à Informação (LAI) e apontam que a empresária agiu diretamente como lobista por interesses conjuntos com Lulinha a órgãos do governo.

Em resposta à apuração, a defesa de Roberta Luchsinger afirmou que ela representa clientes perante órgãos públicos de forma regular e sustentou que “eventuais presenças de terceiros em agendas de trabalho se relacionam ao exercício de sua atividade profissional de representação institucional”. Os advogados de Lulinha afirmaram que ele não recebeu pagamentos por negócios envolvendo empresários e o governo federal

A apuração com base na LAI aponta que o gabinete do ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento Social, foi o local mais visitado por Roberta Luchsinger, com 17 registros de entrada. Ela também esteve 16 vezes no Ministério da Saúde, participou de reuniões no Palácio do Planalto e no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, em parte das agendas, acompanhou representantes de empresas como Duosystem, Grupo Bringel, World Cannabis, Unigel e o então sócio de Lulinha, Fernando Bittar – a defesa dele informou que não comentaria o caso.

Segundo a reportagem, apenas uma dessas reuniões foi registrada oficialmente. Entre os encontros sem divulgação, Roberta entregou presentes ao ministro Wellington Dias e participou de reuniões para apresentação de propostas e soluções tecnológicas, além de acompanhar empresários interessados em projetos junto ao governo.

A apuração mostra que uma dessas agendas ocorreu com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, que buscava apresentar negócios ligados à comercialização de medicamentos produzidos a partir do canabidiol. Segundo a Polícia Federal, uma das linhas de investigação apura se Lulinha teria atuado para favorecer interesses relacionados ao mercado da cannabis medicinal junto ao governo federal.

A empresária também é alvo da investigação que levou à deflagração da Operação Sem Desconto, em abril do ano passado, ligada ao “Careca do INSS”. Conforme a Polícia Federal, uma empresa da lobista recebeu R$ 1,5 milhão do empresário e investigadores analisam se parte desses recursos teria beneficiado Lulinha, hipótese reforçada por mensagens que mencionam um pagamento de R$ 300 mil destinado ao “filho do rapaz”, expressão que, segundo a corporação, pode fazer referência ao filho do presidente.

Em meados de maio, Roberta Luchsinger admitiu em depoimento à Polícia Federal que apresentou Lulinha a Antunes, mas negou qualquer repasse de dinheiro a ele. Durante a fase de investigação, a defesa dele negou qualquer ligação com os fatos apurados e que “jamais recebeu um único real sequer do empresário Antônio Camilo ou de suas empresas”.

O que dizem os citados

A Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) informou que as reuniões realizadas no Palácio do Planalto “não produziram qualquer desdobramento administrativo, contratual ou regulatório decorrente desses encontros”. O Ministério da Saúde também afirmou que seus integrantes recebem representantes do setor para apresentação de tecnologias e negou que as agendas tenham resultado em contratos.

O Ministério do Desenvolvimento Social declarou que nenhuma reunião de Wellington Dias com Roberta Luchsinger gerou atos administrativos. A pasta acrescentou que o ministro mantém com a empresária “relação de amizade de longa data” e que as visitas ocorreram, em grande parte, durante passagens por Brasília para outros compromissos, sendo “visitas breves de caráter pessoal”.

A Unigel afirmou que nunca contratou Roberta Luchsinger e negou qualquer vínculo familiar entre ela e integrantes da companhia. A Duosystem declarou que não possui contratos com o governo federal e informou não manter vínculo trabalhista com a lobista, enquanto o Grupo Bringel não respondeu aos questionamentos.

Crédito Gazeta do Povo

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