Nikolai Patrushev, um dos homens mais fortes do Kremlin, visita Brasília um dia antes de Lula ligar para Putin
O governo brasileiro vive um dos episódios mais tensos de sua relação recente com os Estados Unidos. Nesta terça-feira (3), Washington revogou o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. Anteriormente, em 24 de julho, o Itamaraty negou vistos a diplomatas americanos. Nesse cenário, chegou a Brasília um dos nomes mais influentes da estrutura de poder do Kremlin: Nikolai Patrushev.
Patrushev não é um funcionário qualquer. Ele é apresentado oficialmente como assessor do presidente da Federação da Rússia e presidente do Conselho Marítimo russo. Analistas internacionais o descrevem como uma das figuras mais poderosas do aparato de segurança do Estado russo, o homem que, na prática, comanda áreas estratégicas do governo de Vladimir Putin.
Sua passagem por Brasília incluiu reuniões com representantes do governo brasileiro. Entre eles, Celso Amorim, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, e Maria Laura da Rocha, secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores. Também participou o embaixador russo em Brasília, Alexey Kazimirovitch Labetskiy.
Uma coincidência de calendário
A visita não ocorreu isolada de outros movimentos. Na noite de 5 de agosto, a Rússia lançou um dos maiores ataques do ano contra Kiev, capital da Ucrânia. Foram 28 mísseis, sendo 24 balísticos dos sistemas Iskander-M/S-400. A defesa antiaérea ucraniana não interceptou nenhum.
Um dia antes, em 4 de agosto, por iniciativa brasileira, o presidente Lula (PT) telefonou a Putin. A conversa durou cerca de uma hora. O conteúdo foi detalhado em nota conjunta distribuída pelo Kremlin e pela Embaixada da Rússia em Brasília, e também em nota do Itamaraty.
Segundo o texto oficial brasileiro, os dois presidentes trataram do avanço da cooperação bilateral em energia, ciência e tecnologia e na área naval. Houve destaque para o fornecimento de diesel e fertilizantes russos ao Brasil e para a busca de maior equilíbrio na balança comercial entre os países.
Sobre a guerra na Ucrânia, a nota brasileira registra que Lula “expressou sua decepção com a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU em encaminhar uma solução para os conflitos”. O presidente destacou “os aspectos humanitários” e lamentou “a perda de vidas humanas, inclusive civis”.
Já a versão distribuída pelo lado russo tem outro tom. Nela, Putin “expressou gratidão ao seu homólogo brasileiro pela vontade em auxiliar na busca de uma solução política e diplomática para o conflito ucraniano”. Os dois líderes “confirmaram que a Rússia e o Brasil compartilham abordagens semelhantes ou similares em muitas questões fundamentais da agenda global”.
Os presidentes também reafirmaram a coordenação no âmbito da ONU e de outros foros multilaterais. Destacaram o papel do BRICS. Lula reiterou o apoio brasileiro à candidatura de Michelle Bachelet ao cargo de secretária-geral da ONU.
O pano de fundo com Washington
Em entrevista ao podcast Meteoro Brasil nesta quarta-feira (5), Lula classificou como “irresponsável” a decisão dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington.
“A decisão de revogar o visto da nossa embaixadora é uma atitude que considero irresponsável, impensada para um país que tem 203 anos de relação diplomática”, disse o presidente.
Segundo Lula, a origem da crise está na demora da Casa Branca em confirmar o embaixador indicado para o Brasil, Daniel Perez. Soma-se a isso a decisão brasileira de negar vistos a dois representantes do governo Trump.
“Os Estados Unidos não dão importância para embaixador no Brasil, faz um ano e meio que ele está no poder e não mandou para cá. Aí, tenta mandar e acha que a gente tem a obrigação de fazer a data que eles querem?”, questionou.
O presidente afirmou ainda que dois jovens americanos teriam vindo ao país “para interferir, monitorar e investigar as eleições brasileiras” e tiveram os vistos negados.
O Departamento de Estado americano informou que a medida contra a embaixadora não equivale a uma expulsão. Ela pode permanecer nos Estados Unidos mesmo sem visto válido.
O episódio dá sequência a um atrito que já vinha de semanas antes. Em 25 de julho, o Itamaraty negou vistos aos diplomatas americanos Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Os dois planejavam viajar a Brasília entre 27 e 30 de julho. Reportagem do Washington Post apontava os dois como responsáveis por uma estratégia para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro, às vésperas das eleições presidenciais de outubro. Ministros do STF classificaram a missão, à época, como “escandalosa” e “inusitada”. O Departamento de Estado negou qualquer intenção de interferência. Segundo o órgão, a viagem trataria de “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”.





