Supremo termina nesta sexta (16/10) julgamento sobre repercussão a respeito de equiparação de pagamentos do SUS a hospitais filantrópicos
Um julgamento que se encerra esta semana no Supremo Tribunal Federal (STF) joga luz sobre uma indústria de precatórios que tira, todos os anos, R$ 24 bilhões dos recursos que o governo tem para investir em saúde pública.
Funciona assim:
Hospitais filantrópicos que atendem a pacientes do SUS são pagos de acordo com os valores da chamada Tabela do SUS. As entidades ingressam na Justiça pedindo a equiparação dos pagamentos aos valores da Tabela Única Nacional de Equivalência de Procedimentos (Tunep), usada na iniciativa privada.
Com a vitória na Justiça, são criados precatórios — créditos a serem pagos pelo governo. Os hospitais não esperam o pagamento: vendem os precatórios a fundos de investimento, com deságio.
A União estima que essa equiparação dos valores à Tunep possa custar até R$ 24 bilhões por ano ao orçamento da Saúde.
Atualmente, o Supremo vota, no plenário virtual, se reconhece a repercussão geral do tema — ou seja, se estabelece uma orientação a ser seguida no julgamento de casos semelhantes.
A votação começou na semana passada e termina nesta sexta (16/10). Já há maioria a favor do reconhecimento da repercussão geral, com os votos dos ministros Gilmar Mendes (relator), Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin, Edson Fachin e Dias Toffoli. Só Luiz Fux votou contra.
Ainda não se manifestaram Nunes Marques, Cármen Lúcia e André Mendonça.
TRF-1 concentra casos da “farra dos precatórios”
Levantamento da coluna mostra que os casos sobre a revisão da tabela estão distribuídos de forma desigual pelo país, com concentração expressiva no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
A Corte, sediada em Brasília, soma atualmente 225 processos sobre o caso — 10 vezes mais que o segundo tribunal, o TRF da 4ª Região (TRF-4), de Curitiba (PR). No TRF-3, em São Paulo, há outros 20 processos. No STJ, são 72 casos.
No fim de setembro, o desembargador Ney Bello, atual corregedor regional da Justiça Federal da 1ª Região, enviou ao STF um relatório sobre os julgamentos dos pedidos dos hospitais beneficentes naquele tribunal.
Em quatro das varas do TRF-1, os juízes expediram precatórios para os hospitais antes do chamado trânsito em julgado — ou seja, antes do encerramento dos recursos possíveis. O dinheiro ficava retido em contas judiciais, à espera de eventuais recursos ao STJ e ao próprio STF.
Em outros três casos, os juízes emitiram os precatórios e pagaram os credores antes do trânsito em julgado. Ney Bello determinou a abertura de sindicância para investigar a atuação desses três juízes.
Escritórios de advocacia de filhos de ministros do STJ estão entre os que mais atuam em causas de hospitais filantrópicos, no que vem sendo chamado nos bastidores de “farra dos precatórios” do Sistema Único de Saúde (SUS).
Levantamento realizado pela coluna identificou 15 processos sobre o tema com o escritório Djaci Falcão Advogados Associados, que tem entre os sócios o advogado Djaci Alves Falcão Neto. Ele é filho do ministro do STJ Francisco Falcão.
Já o escritório do jurista Eduardo Filipe Alves Martins, filho do ministro do STJ Humberto Martins, atuou em oito processos sobre o tema. O escritório da outra filha de Humberto Martins, Luísa Lima Bastos Martins, tem seis casos.





