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Polícia prende 52 mulheres usadas por quadrilhas como iscas para sequestrar homens e extorquir dinheiro em golpes

foto: reprodução

Duas delas foram presas nesta quinta (15) pela Divisão Antissequestro de São Paulo. Maior parte de prisões continua sendo de homens: 460. Entre 2021 e 2024, houve 168 vítimas. Todos eram homens.

Golpe do aplicativo: mais de 160 homens foram sequestrados em três anos 

Nos últimos três anos, a Polícia Civil de São Paulo prendeu 52 mulheres usadas por quadrilhas como iscas para atrair, sequestrar e extorquir homens que caíram no “golpe do amor” na capital e Grande São Paulo. 

Em 2021, seis mulheres foram presas. Em 2022, 19 acabaram detidas. E no ano passado, ocorreram 25 prisões do tipo. O levantamento foi feito pela Divisão Antissequestro (DAS) a pedido do g1 e do Jornal Hoje. A DAS se especializou em investigar esse tipo de crime. 

Mulheres falam de vítima do ‘golpe do amor’ 

Na manhã desta quinta-feira (15), mais duas mulheres acusadas de dar o golpe foram presas pela DAS. Uma delas é Leticia Nicolau Gomes, que já havia sido detida em março de 2023 pelo mesmo crime. A TV Globo chegou a mostrar esse caso também no ano passado. A Justiça concedeu prisão domiciliar a ela. 

Mas, segundo a investigação, ela continuava enganando homens para levá-los a emboscadas, onde seriam feitos reféns até que transferissem dinheiro para contas de “laranjas” ou dos sequestradores. Ao todo, ela já teria feito seis vítimas. A defesa de Letícia não foi encontrada para comentar o assunto até a última atualização desta reportagem.

Além disso, a Divisão Antissequestro procura mais uma mulher envolvida no “golpe do amor”, como o crime do aplicativo de relacionamento ficou conhecido no jargão policial. 

Os policiais da DAS ainda monitoram as ações desses grupos criminosos com as demais delegacias distritais de São Paulo e de outras cidades da região metropolitana. Entre 2021 e janeiro deste ano, 168 homens foram vítimas dessas quadrilhas na Grande São Paulo. Cinco deles acabaram mortos pelos sequestradores (leia mais abaixo)

Não há registro de vítimas mulheres. Os bandos são todos comandados por homens. Nesse mesmo período, ao menos 460 deles foram presos pela polícia. Além de extorsão mediante sequestro, também foram indiciados por organização criminosa, lesão corporal e tortura. 

Estatisticamente, mulheres cometem menos crimes do que homens no Brasil. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 8.658 mulheres estavam no sistema prisional em 2022, o que representa 4,6% do total da população carcerária masculina (186.698 homens).

Quando os primeiros casos do “golpe do amor” começaram no estado, os homens se passavam por mulheres. Os bandidos entravam em aplicativos de relacionamentos, pegavam fotos de garotas aleatórias e desconhecidas. Depois, abriam um perfil falso e faziam contatos com jovens e senhores, com idades entre 25 a 65 anos, para enganá-los. Na sequência, chamavam-nos para encontros com mulheres que nunca existiram. 

No local combinado, esses homens eram sequestrados por bandidos encapuzados e armados. No cativeiro, eram obrigados a passar senhas de contas bancárias para fazer transferências por PIX. Só depois disso, as vítimas eram libertadas. 

Quadrilhas usam mulheres como iscas

Foto acima é do perfil falso de uma mulher presa por aplicar o ‘golpe do amor’. Ela usou a foto de outra pessoa para enganar um homem — Foto: Reprodução

Com o passar do tempo, homens que acessam sites de relacionamento perceberam o golpe e passaram a tomar medidas de segurança que dificultaram as ações dos criminosos. Mas as quadrilhas também se aperfeiçoaram e buscaram alternativas para convencer as vítimas a deixar suas casas e ir para falsos “dates”. 

Para isso, segundo a Divisão Antissequestro, os bandidos passaram a convocar esposas, namoradas e amigas para os golpes. Elas têm entre 20 a 30 anos de idade. Em troca de parte do dinheiro roubado dos homens que ajudaram a enganar, algumas mulheres aceitam participar do esquema. 

Para ganhar a confiança dos homens com quem deram “match” nas plataformas digitais, elas são orientadas pelas quadrilhas a criar perfis com suas fotos, mas usando nomes falsos nas redes sociais. Depois enviam áudios, atendem videochamadas e até vão a encontros em locais públicos com as potenciais vítimas. 

Tudo para convencer esses homens de que as mulheres das fotos que os atraíram nos aplicativos são “reais”. 

Após conquistarem a confiança dos homens, essas mulheres podem entrar em seus carros e ir com eles para outros locais. Algumas sugerem supostos motéis, ou pedem que eles as deixem em suas supostas casas. Mas, em vez disso, os pretendentes encontravam criminosos armados bloqueando os trajetos dos veículos e os abordando com violência. Em seguida, são sequestrados e ameaçados até transferirem dinheiro para a quadrilha. 

Celular apreendido pela polícia de São Paulo com uma mulher presa pelo 'golpe do amor'. À esquerda está a conversa dela com um empresário que foi vítima da quadrilha. À direita a lista de outros homens, potenciais alvos do grupo — Foto: Reprodução

Celular apreendido pela polícia de São Paulo com uma mulher presa pelo ‘golpe do amor’. À esquerda está a conversa dela com um empresário que foi vítima da quadrilha. À direita a lista de outros homens, potenciais alvos do grupo — Foto: Reprodução

Em um dos casos, um empresário do interior paulista, de 50 anos, conheceu, em setembro do ano passado, uma mulher de 22 anos pelo Tinder. Mesmo se certificando de que a jovem morena da foto do aplicativo era a mesma que encontrou dias depois num local público e seguro, ele caiu no “golpe do amor”. 

Ele foi ao encontro em um shopping em Itaquaquecetuba, Grande São Paulo. O homem contou que a garota que estava interessado lhe sugeriu um encontro mais íntimo entre eles e uma amiga dela, uma mulher de 20 anos que também usava um nome falso. Ele viu a foto e se mostrou interessado em um suposto ménage

Com isso, o empresário e a jovem de 22 anos foram no carro dele pegar a garota, em sua suposta casa no Itaim Paulista, Zona Leste de São Paulo. 

A garota de 20 anos, que aguardava a chegada da amiga com a vítima, estava com mais três criminosos armados. Em um dos áudios que enviou no celular da mulher que servia de isca, ela disse: 

“É bom você fazer ele estacionar o carro, tá ligado? Fazer ele estacionar o carro bonitinho, não ficar parado na rua. Estacionar o carro bonitinho. Eu acho que é bom você falar, na hora, lá pra ele: ‘Então, vamos buscar minha amiga ali’, vai instruindo ele”, fala a garota.

Enquanto o homem se dirigia com a mulher de 22 anos para o suposto encontro, um dos criminosos enviou para um comparsa a foto da arma que iria usar para abordar a vítima, segundo a investigação da DAS (veja abaixo)

Arma usada por um dos criminosos para sequestrar um empresário vítima do golpe do amor num shopping em Itaquaquecetuba, segundo a DAS — Foto: Reprodução

Arma usada por um dos criminosos para sequestrar um empresário vítima do golpe do amor num shopping em Itaquaquecetuba, segundo a DAS — Foto: Reprodução

Chegando lá, o empresário encontrou a jovem de 20 anos, e se certificou de que era a mesma da fotografia. Mas logo em seguida surgiram mais três homens armados. 

O empresário foi levado para um cativeiro, onde acabou obrigado a transferir o que tinha na conta do banco para os sequestradores. Durante patrulhamento, as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tropa de elite da Polícia Militar (PM), notou que um grupo suspeito de pessoas retirava malas de um carro. Ao abordá-las, os policiais verificaram que elas estavam com os documentos da vítima, que foi encontrada e libertada. 

As duas mulheres usadas como iscas e o namorado de uma delas foram presos (veja foto abaixo)

Um homem e duas mulheres foram presos acusados de aplicar o 'golpe do amor' num homem — Foto: Reprodução

Um homem e duas mulheres foram presos acusados de aplicar o ‘golpe do amor’ num homem — Foto: Reprodução

Procurado pela reportagem, o empresário que foi vítima do grupo não quis comentar o assunto: “Não tenho interesse em voltar a falar sobre isso. Peço desculpas em não poder ajudar. A DAS já fez a sua parte e isso é o que importa”. As defesas dos três presos não foram encontradas. 

A maior parte das mulheres presas por participarem do “golpe do amor” foi indiciada por extorsão mediante sequestroe outros crimes. As penas vão de 1 ano a 5 anos de detenção em caso de condenação na Justiça. 

“Em 2021, a gente começa a ter esse avanço criminal, 2022, um avanço desse fenômeno e agora em 2023 a gente começa a ter uma queda muito importante. Nos últimos três meses, a gente só teve um caso de ‘golpe do amor’”, afirmou o delegado Fábio Nelson Fernandes, chefe da DAS. 

Casos de ‘golpe do amor’ na capital e Grande São Paulo

Ano Homens vítimas Vítimas mortas Homens presos Mulheres presas Total de presos*
2021 3 6 6
2022 115 3 298 19 317
2023 49 2 162 25 187
2024 1 2 2
Total  168 5 460 52 512

Em outro caso, a vítima foi a um encontro com uma moça com quem conversou pelas redes sociais por três semanas. 

“Eu a conheci num aplicativo de relacionamento e ali nós trocamos contatos. E continuamos trocando mensagem, áudio, falamos por telefone também.” Mas o que deveria ser um jantar agradável se tornou um “pesadelo” quando ele chegou ao local para o encontro com a garota. 

“Um carro preto, com uns quatro meliantes dentro, e já desceram com a arma e colocaram a arma no vidro e falaram: ‘Ah, perdeu, perdeu, perdeu. Levanta, vai pro banco de trás que é sequestro’”, disse a vítima.

Todas as vítimas atendidas pela DAS foram homens. Outro que também caiu no “golpe do amor” contou à reportagem como foi enganado pela mulher com quem deu “match” em um aplicativo. 

“Você começa a ganhar um pouco mais de segurança de que de fato é uma mulher. Eu estou falando com uma mulher e que está interessada, entendeu? Ela sempre demonstrou muito interesse por mim, pelo que eu faço”, contou a vítima, que chegou a ficar mais de 17 horas refém dos criminosos, depois de ter ido a um encontro com eles e não com a garota dos sonhos. “E você não percebe que isso tudo faz parte de um discurso muito bem amarrado para te pegar.” 

Num dos casos mais graves, um dos homens que foi vítima da quadrilha de golpistas foi baleado pelos criminosos depois de ir ao endereço do suposto encontro com uma mulher que conheceu nas redes sociais. 

“Tem dia que é só choro. Você acorda desanimado, chora, chora o dia inteiro. Porque parei, né, minha vida. Eu parei. É uma readaptação, um recomeço”, disse ele à reportagem, lembrando de quando recebeu a notícia de que ficou paraplégico.

Homem morreu baleado após marcar encontro por aplicativo na Zona Norte de SP — Foto: Reprodução/TV Globo

Homem morreu baleado após marcar encontro por aplicativo na Zona Norte de SP — Foto: Reprodução/TV Globo

Segundo a DAS, cinco vítimas foram mortas por criminosos entre 2021 e 2024 (veja quadro acima). Num dos casos, um homem de 58 anos morreu baleado na cabeça depois de tentar fugir de criminosos que simularam um encontro na Zona Norte da capital, no ano passado. 

A região Norte de São Paulo responde pela maioria dos “golpes do amor” aplicados na cidade desde que o crime começou a ser praticado pelos bandidos. Para efeitos comparativos, dos 23 casos do ano passado registrados, 21 deles foram na Zona Norte, de acordo com apuração da reportagem. 

Segundo a Divisão Antissequestro, essas ocorrências estavam concentradas na Zona Norte porque as quadrilhas que surgiram eram dessa região. Mas, de acordo com o delegado Fabio Nelson, depois de uma ação conjunta da DAS com as delegacias da capital, e as prisões dos chefes dos grupos criminosos, esse tipo de crime foi reduzido não só na Zona Norte, mas em toda a cidade. 

“Nos últimos três anos, 20 quadrilhas foram presas”, disse o diretor da DAS.

O ‘boom’ dos casos ocorreu em 2022, segundo Fabio Nelson, quando o governo de São Paulo tirou a obrigatoriedade do uso de máscaras contra Covid em locais fechados. Naquele ano, foram feitas 115 vítimas, com duas mortes. Em 2023, o número de homens sequestrados caiu para 49. 

“O que nós sempre temos orientado para essas pessoas é para que antes do encontro faça uma videochamada, e um encontro em local público. O encontro em local público vai mitigar possibilidades de um sequestro”, falou o delegado da Divisão Antissequestro.

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