Em áudio e documentos obtidos por VEJA, ex-banqueiro afirma ter pago os recursos em esquema com ex-tesoureiro do PT e o ministro Alexandre Padilh
Como um dos maiores ativos em sua trajetória no mundo financeiro, Daniel Vorcaro cultivou uma impressionante teia de relações com autoridades de diversos espectros no país.
O dono do Banco Master cooptava poderosos a partir do pagamento de milionárias propinas e festas luxuosas quase sempre animadas por jovens garotas de programa de diferentes cantos do planeta.
As provas colhidas pela Polícia Federal mostram que o banqueiro, preso desde março em Brasília, sob acusação de protagonizar uma das maiores fraudes bancárias da história do país, conversava com líderes partidários de todas as correntes políticas, do PL ao PT, e tinha “irmãos” nos três Poderes da República, graças aos laços formados pela força sedutora do dinheiro.
Desde a eclosão do escândalo, Lula, candidato à reeleição, usou o caso para fustigar adversários metidos com o banqueiro, incluindo o senador Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo milhões de reais ao bilionário para supostamente financiar o famoso filme Dark Horse.
“Vorcaro não era apenas um ladrão, era um mágico”, disse o petista em uma entrevista recente, acrescentando que a investigação precisa prosseguir, “doa a quem doer”. No meio de um grande clima de degradação moral, para todos os efeitos, o presidente da República estava fora de quaisquer acusações envolvendo Vorcaro.
“Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula. Tudo no… (inaudível) O filme do Lula eu coloquei acho que até mais, eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”
Não mais.
VEJA teve acesso a relatos feitos pelo banqueiro nos quais ele revela ter negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o pagamento para conseguir acessar os cofres dos fundos de pensão de servidores federais controlados pelo petismo.
Segundo conta o banqueiro em um áudio e em documentos obtidos por VEJA, seriam 30 milhões de reais em espécie, pagos por fora ao Instituto Lula, gerenciado pelo diretor e amigo do presidente, Paulo Okamotto, destinados a financiar a produção de um documentário sobre Lula no exterior e mais um valor não revelado pelo banqueiro pago diretamente para o Instituto Lula.
Vorcaro juntou detalhes dessa história num anexo que foi levado à PGR. A Procuradoria não levou adiante o caso, com a justificativa de que não haveria provas da história, tendo em vista que os pagamentos teriam sido feitos em dinheiro vivo.
A defesa de Vorcaro contra-argumentou, dizendo que o banqueiro teria provas como mensagens de WhatsApp, registros das pessoas que retiraram o dinheiro vivo e a relação de lugares e rotas usadas por operadores nas entregas do dinheiro. A história não foi adiante.
A confissão de Vorcaro envolve outros personagens graúdos do PT. De acordo com o banqueiro, a aproximação com o partido foi arquitetada por seu sócio, o então CEO do Master, Augusto Lima, que contou com o então líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, para intermediar o primeiro encontro com Vaccari. Os fatos estão registrados num anexo levado à Procuradoria-Geral da República em junho passado — quando a segunda proposta de delação foi descartada.
“O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto.
Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”, diz o banqueiro.
O filme a que ele se refere é o documentário Lula, de Oliver Stone, que contou com depoimentos de amigos e aliados do presidente, como o advogado Walfrido Warde.

Além dessa primeira quantia, Vorcaro conta que Vaccari exigiu uma taxa de 10% de tudo o que o banco captasse junto aos fundos de previdência de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. Se tudo tivesse dado certo, o petismo embolsaria 1 bilhão de reais. Vorcaro, por sua vez, faturaria 9 bilhões de reais na mesma operação. “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele (Vaccari).
É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara (Vaccari) pede para colocar dinheiro no filme do Lula”, explica Vorcaro num áudio sobre a negociação. O interlocutor do bilionário, impressionado com a revelação, argumenta que a situação se parece com o caso dos mais de 60 milhões de reais dados pelo banqueiro ao filme sobre Jair Bolsonaro, o Dark Horse.
Vorcaro parece não concordar: “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais (que o filme de Bolsonaro). Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”.

Na confissão, Vorcaro conta que o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Alexandre Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e dois operadores ligados à dupla também atuaram no esquema. “No fim de 2023 e início de 2024, formei uma equipe interna no Banco Master para captação institucional junto a novos produtos financeiros através dos fundos de pensão do Governo Federal…
Com isso, eu logo passei a receber propostas espúrias (“as mordidas”) de políticos e emissários desses”, narra o banqueiro. Ele relata que o Master não perdeu tempo ao vislumbrar a oportunidade. Ao longo do primeiro semestre de 2024, partiu para a abordagem junto aos presidentes dos fundos estatais.
Nessa fase, entra em cena um novo personagem. O contato de Vorcaro com presidentes dos fundos de pensão se dá com um operador petista identificado como “Júlio”, com livre acesso ao gabinete de Padilha no Planalto.


Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro ajudaram a corroborar o relato de Vorcaro. Elas mostram que Júlio apresentou o banqueiro ao braço direito de Padilha no Planalto, Olavo Noleto.
Essa aproximação foi exaltada numa mensagem de celular pelo empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro de Vorcaro em outros negócios. “Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”, escreveu Mares Guia. Na sequência, o banqueiro conta que foi pessoalmente ao Planalto conhecer Padilha e teve pelo menos dois jantares com o ministro enquanto tentava colocar em prática o esquema de negócios com os fundos das estatais.
“Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’”, diz Vorcaro.
Depois dessa reunião, Vorcaro afirma que recebeu Júlio, Olavo e o primo dele para um encontro mais reservado. “Júlio, Olavo e seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’”, diz.

Estabelecida a condição para acessar os fundos de previdência das estatais, Júlio começou a trabalhar a favor de Vorcaro. Mensagens no celular mostram que o banqueiro foi pessoalmente ao Postalis, em Brasília, se reunir com a cúpula do fundo e também conseguiu reuniões com Petros e Previ, a partir da ajuda de Padilha, via Olavo Noleto.
O senso de urgência para fechar negócios com os fundos era grande. “O e-mail que pediram Petros”, diz Vorcaro em um dos diálogos ao operador Júlio, sobre o contato com a cúpula do fundo que ele havia feito, em 8 de abril de 2024. “Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele”, responde Júlio, referindo-se a Noleto. “O da Petros já foi? Cobrando?”, acrescenta Vorcaro. “Já sim”, afirma Júlio. “Vamos pressionar pra boletar (liberar o investimento). Postalis evoluiu?”, cobra Vorcaro no mesmo dia. “Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda”, diz Júlio sobre Previ. “Vamos tentar concluir os que abrimos”, insiste Vorcaro.
Havia, naqueles dias, no entanto, um obstáculo concreto para que Vorcaro pudesse acessar os fundos controlados pelo petismo. O Banco Master precisaria entrar na chamada “lista exaustiva”, um documento oficial publicado pelo governo que mostra as instituições financeiras autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais. A inclusão — na prática, a abertura do cofre dessas empresas ao Master — se deu em 29 de abril de 2024. Coube a Augusto Lima anunciar a Vorcaro a novidade. “Entramos na lista exaustiva. Resolvido”, disse Lima. “Você é foda”, comemorou Vorcaro.
As conversas de Vorcaro com o operador ligado ao grupo de Padilha mostram que Júlio cobrou um pagamento de 500 000 reais no mesmo dia em que o Master foi autorizado pela gestão petista a operar nos fundos. Seria um adiantamento da propina. Vorcaro pagou e deu um aviso: “Quero ver agora você virar uma boleta de verdade (o que no caso significaria obter junto aos fundos pelo menos 500 milhões de reais para o Master)”. “Pode deixar. É empenho de vida, Daniel, isso”, disse Júlio.
Ao pedir o pagamento, Júlio justificou: “Daniel, desculpa tá apertando, mas é que você é a única pessoa que eu possa falar isso!! Preciso ver se você consegue me ajudar… Quero ir pro jantar tranquilo”. O “jantar” em questão reuniu Padilha, Olavo e Júlio na casa de Vorcaro dois dias depois de o governo liberar o Master a operar nos fundos. Com todos os negócios andando, tudo parecia articulado para que o banqueiro e seus parceiros petistas começassem a fazer negócios.

Essa ilusão de que tudo daria certo durou pouco mais de um mês. Em julho daquele ano, um evento jogou tudo por terra. Na primeira tentativa do Master de empurrar 500 milhões de reais em letras financeiras na Caixa Econômica Federal, a operação vazou para O Globo.
A jornalista Malu Gaspar noticiou, em 12 de julho de 2024, que dois gerentes da Caixa haviam sido destituídos de seus cargos após emitirem parecer contra a operação de Vorcaro. “Com as matérias difundidas na imprensa em julho de 2024 sobre a suposta perda de cargo de gestores da Caixa Asset que teriam sido contrários ao investimento em LFs do Banco Master, o grupo de Padilha e os dirigentes da Petros, Postalis e BB preferiram segurar a decisão de fazer o investimento”, diz Vorcaro.
Apesar do recuo, os petistas e o banqueiro continuaram em contato, e Vorcaro relata ter conseguido captar recursos em fundos municipais em que o operador de Padilha tinha influência. Segundo o dono do Master, a mesma lógica de pagamento de 10% foi seguida, rendendo pelo menos 6 milhões de reais ao ministro de Lula e seus operadores.
Com o tempo, essa parceria fez com que Vorcaro ganhasse créditos no Planalto, levando Padilha e seu secretário-executivo a atuarem para que Lula recebesse o banqueiro. Em 23 de outubro de 2024, Vorcaro deu um segundo jantar para Padilha, Olavo e seus operadores em Brasília. “Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã, às 22 horas, um jantar contigo em bsb (sic)… Vai 5 pessoas… Padilha, Olavo, o Fernando (primo), um assessor do Padilha e eu”, escreveu Júlio ao banqueiro na véspera.

No dia seguinte, eles comentam sobre a possibilidade de um encontro entre Lula e Vorcaro, organizado pelo gabinete do ministro, segundo as mensagens sugerem. “Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”, escreveu Júlio. “Daniel, tô insistindo aqui porque já conversaram com PR e ele gostou da conversa! Olavo pediu pra retornar para ele para fazer agenda contigo”, complementou. Vorcaro, por algum motivo, demorou para responder sobre a reunião com Lula, e Júlio insistiu: “Daniel, não esquece do Olavo. Ele vai te passar informações. E fazer agenda. Porque semana que vem é sua reunião importante”, disse Júlio.
Ao contrário do que sugerem essas conversas, não há qualquer prova de que Lula teve realmente esse encontro com Vorcaro. A única reunião confirmada no Palácio do Planalto ocorreu articulada pelo advogado Walfrido Warde junto ao então chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana, o Marcola, em 4 de dezembro daquele mesmo ano, fora da agenda oficial, tendo como pauta a situação do Master junto ao Banco Central.
Apesar de todos os contatos e do dinheiro que teria sido pago por exigência de Vaccari, o banqueiro seguiu sem conseguir captar recursos nos fundos federais. Já em meados de 2025, com a crise do Master escalando e a falta de sucesso na empreitada, Vorcaro perdeu a paciência com o operador petista. “Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta (investimento). Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum”, disse Vorcaro em junho de 2025. “Falhou de novo o negócio?”, insistiu o banqueiro.
O operador alegou que as “fake news” sobre as fraudes do Master atrapalhavam as possíveis captações junto aos fundos. No início de agosto, depois de emprestar um avião para que o operador viajasse e tentasse mais uma vez liberar verbas dos fundos ao Master, sem sucesso, Vorcaro decidiu encerrar as conversas. “Cara, essa é a última chance. Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho. Já consumiu muito tempo, dinheiro e recursos nossos”, disse o banqueiro. “Concordo!”, afirmou Júlio. “Sexta que vem — não entrando — vida que segue. Lá na frente bolamos outra coisa juntos”, disse o banqueiro.
Procurado, Lula disse que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”. Noleto disse não ter qualquer relação com Vorcaro nem ter recebido recursos dele. Padilha também negou relação com Vorcaro.
Os outros citados não se manifestaram até o fechamento desta reportagem. Segundo Vorcaro, a confissão dele sobre o esquema armado com Vaccari, os pagamentos para o filme de Lula, para o instituto e os relatos da atuação de Padilha e de seus auxiliares nos fundos foi apresentada às autoridades. Ainda de acordo com o banqueiro, mesmo oferecendo uma longa lista de provas — conversas de WhatsApp, registro de entrada dele no Planalto, e-mails, atas de reuniões nos fundos, comprovantes de pagamento e dados de voos usados no esquema —, essas autoridades teriam descartado o anexo juntamente com o material que revelava pagamentos ao chefe do Senado, Davi Alcolumbre, e a integrantes do Judiciário.
Vorcaro, como se sabe, fracassou em sua primeira tentativa de delatar por omitir fatos aos investigadores. Essa postura colocou em descrédito o banqueiro, que tentou se redimir na segunda tentativa de confissão, mas acabou fracassando. Atualmente, o banqueiro trabalha em sua terceira proposta de delação. Pela gravidade dos fatos narrados por ele, é fundamental que a investigação prossiga. Doa a quem doer.
ATUALIZAÇÕES:
Após a publicação da reportagem, a defesa de Augusto Lima enviou a seguinte nota:
A defesa de Augusto Lima rechaça e repudia veementemente as informações publicadas, baseadas em relatos mentirosos, falsos e delirantes, supostamente apresentados em uma proposta de delação recusada pelas autoridades.
Tais informações, que deveriam ser sigilosas, não passam de uma narrativa falsa, fictícia e unilateral, sem valor probatório, utilizada apenas para lançar suspeitas sobre terceiros.
Causa indignação a divulgação de trechos de uma suposta proposta de delação, que não podem sequer serem levados em consideração uma vez que já foram rejeitados.
O vazamento de supostos trechos de uma colaboração reiteradamente recusada pelas autoridades constitui proceder criminoso, cuja conduta, pela sua gravidade, exige investigação rigorosa.
A defesa reafirma que não há fundamento para atribuir a Augusto Lima qualquer ato ilícito e confia que a investigação comprovará sua inocência.
Após a publicação da reportagem, a PGR enviou a seguinte nota:
A Procuradoria-Geral da República (PGR) esclarece que as tratativas de colaboração premiada envolvendo o senhor Daniel Vorcaro foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado, como devido. Todas as propostas formalizadas pela Defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR.
Não houve depoimento oral do Sr. Vorcaro, justamente por conta da rejeição da proposta, cujos motivos foram expostos à defesa.
A Procuradoria-Geral da República respeita o sigilo que se impõe, por lei, ao procedimento de colaboração premiada havido.





