Ex-banqueiro negociava participação em resort no Paraná e buscava tratar de direitos creditórios do setor sucroalcooleiro
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, encontrou o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), pelo menos 12 vezes entre outubro de 2023 e fevereiro de 2025, segundo mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF). Os encontros teriam ocorrido enquanto Vorcaro negociava uma participação no Tayayá Resort, no Paraná, que teve Toffoli e irmãos do ministro como sócios.
As mensagens foram divulgadas pelo portal UOL. De acordo com a apuração, a aproximação entre Vorcaro e Toffoli também estaria relacionada a um processo que envolvia direitos creditórios de usinas do setor sucroalcooleiro, avaliados em bilhões de reais e considerados relevantes para o patrimônio do Banco Master.
Em nota ao UOL, a defesa de Vorcaro contestou a divulgação do material, que integrava uma das propostas de delação premiada rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). “A defesa não confirma o conteúdo do material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas.”
Mensagens contradizem cronologia apresentada por Vorcaro
Em uma proposta de colaboração rejeitada pela PGR por insuficiência de provas, Vorcaro afirmou que havia acertado, em 2021, o pagamento de R$ 35 milhões por uma participação no Tayayá. Segundo o relato, R$ 20 milhões foram pagos, enquanto R$ 15 milhões permaneceram pendentes.
O ex-banqueiro teria atribuído a falta de pagamento ao afastamento de Toffoli, que teria ocorrido depois de críticas feitas por pessoas próximas ao ministro. Ainda segundo a versão apresentada na proposta, a relação entre os dois teria sido retomada somente no início de 2025, durante um evento social de um amigo em comum.
Na ocasião, de acordo com Vorcaro, o empresário Alberto Leite teria manifestado interesse em comprar sua participação no empreendimento. O ex-banqueiro disse ter conversado pouco com Toffoli durante o encontro.
As mensagens apreendidas pela PF, contudo, revelam que a cobrança dos R$ 15 milhões já era discutida em 2024. Em 24 de maio daquele ano, horas depois de receber uma ligação de Toffoli, Vorcaro escreveu ao cunhado Fabiano Zettel: “Não resolveu o aporte no fundo. Tayayá. Estou em situação ruim”.
Os diálogos também revelam que a negociação com Alberto Leite teria começado antes do evento de 2025 mencionado por Vorcaro. Em 5 de novembro de 2024, o ex-banqueiro escreveu a Leite: “Estou pronto pra executar aquele deal que falamos”. A resposta foi: “Beleza”.
Na mesma noite, Vorcaro informou a Zettel que “aquele FIP [fundo de investimento] Tayayá tem que passar pra um amigo que vai comprar”. Em seguida, identificou o possível comprador como “Alberto”.
Em 27 de dezembro, Vorcaro voltou a tratar do negócio: “Preciso fazer contrato de venda do fundo Tayayá”, escreveu. A mensagem também estabelecia prazo de pagamento de até 180 dias e fazia referência a “sem nome” ao tratar do comprador.
A negociação aparece novamente nas mensagens em 19 de fevereiro de 2025. Naquele dia, Zettel informou a Vorcaro: “Alberto Leite concluído! Tá todo feliz”. O diálogo revela que a operação havia sido concluída.
Fundo da Reag também aparece na investigação
A Polícia Federal identificou ainda uma conexão entre o negócio e o fundo Arleen, administrado pela gestora Reag, que também é investigada no caso que envolve o Banco Master.
Em 2021, o fundo comprou dos irmãos de Toffoli uma participação no Tayayá por R$ 20 milhões. O valor coincide com a quantia que Vorcaro afirmou ter desembolsado inicialmente pelo empreendimento.
Em nota divulgada em fevereiro de 2026, Toffoli afirmou que a Maridt Participações, empresa presidida por um de seus irmãos e que teve participação no Tayayá, é “uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado”.
O ministro declarou ainda que “todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado” e que os atos da empresa e de seus sócios foram informados à Receita Federal, “sem nenhuma restrição”.





