Os democratas conquistaram, nesta terça-feira, o controle da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, revertendo a maioria republicana após quatro anos na oposição e inaugurando uma nova era de governo dividido, segundo projeção do Decision Desk HQ.
A mudança terá repercussões imediatas sobre o funcionamento de Washington no próximo ano, freando a agenda legislativa do presidente Donald Trump e preparando o terreno para inúmeros confrontos entre a Câmara e a Casa Branca sobre temas que vão desde a aplicação das leis de imigração e os gastos públicos até as tarifas globais de Trump e a guerra no Irã.
Os democratas prometeram iniciar uma extensa série de investigações sobre Trump e seu círculo mais próximo, incluindo apurações aprofundadas sobre o escândalo Jeffrey Epstein; a violência que acompanhou a intensificação das deportações promovidas por Trump; e as finanças pessoais e familiares do presidente, que cresceram expressivamente desde seu retorno ao poder, no ano passado.
O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, democrata de Nova York, que deve se tornar o próximo presidente da Câmara, afirmou que essas investigações começarão imediatamente.
“Nossa promessa ao país no novo Congresso é que, a partir do primeiro dia, vamos responsabilizar os criminosos”, declarou Jeffries às vésperas das eleições.
Os democratas já iniciaram muitas dessas investigações no atual Congresso. Mas elas serão intensificadas no próximo ano, graças aos amplos poderes que o partido terá com a maioria, incluindo a capacidade de controlar a pauta do plenário, determinar as audiências das comissões e emitir intimações para obter documentos e depoimentos de testemunhas. Segundo os democratas, integrantes do gabinete de Trump e membros de sua família estarão entre os principais alvos.
Os democratas também estão preparando uma agenda legislativa agressiva, com iniciativas para reduzir o elevado custo dos bens de consumo, desde alimentos e combustíveis até moradia e assistência médica. Nas primeiras semanas, isso provavelmente incluirá projetos para restabelecer os subsídios do Obamacare, que expiraram em janeiro, e reverter os cortes no Medicaid aprovados pelos republicanos no ano passado.
Não se espera que esses projetos se tornem lei, já que Trump continuará na Casa Branca com seu poder de veto. No entanto, eles poderão colocar parlamentares republicanos eleitoralmente vulneráveis diante de votações difíceis e proporcionar aos democratas um histórico concreto de propostas políticas para apresentar nas eleições de 2028.
A mudança no equilíbrio de poder não foi uma surpresa.
Historicamente, as eleições de meio de mandato são difíceis para o partido que controla a Casa Branca, e essa tendência foi agravada neste ano pela instabilidade econômica, por uma guerra impopular no Irã e pelo alto custo de vida, que tem prejudicado Trump desde seu retorno à Presidência. Às vésperas da votação, os índices de aprovação do presidente estavam em mínimas históricas, criando dificuldades para candidatos republicanos até mesmo em distritos nos quais Trump havia vencido com facilidade apenas dois anos antes.
Percebendo o cenário desfavorável, Trump e seus aliados tentaram proteger a maioria republicana na Câmara pressionando estados governados pelo Partido Republicano a redesenhar seus mapas eleitorais em benefício dos candidatos do partido.
Essa iniciativa permitiu aos republicanos conquistar algumas cadeiras que, de outra forma, teriam ficado com os democratas. Mas não foi suficiente para protegê-los da onda de eleitores insatisfeitos que aparentemente encararam as eleições de meio de mandato como um referendo sobre Trump e uma oportunidade de impor limites ao poder Executivo do presidente.
A vitória democrata coloca Jeffries em posição de fazer história como o primeiro presidente negro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. A votação para o cargo ocorrerá no plenário da Câmara em 3 de janeiro.
Logo abaixo de Jeffries, a composição da liderança partidária provavelmente não sofrerá alterações: a deputada Katherine Clark, de Massachusetts, atual whip democrata, deverá permanecer como a segunda principal liderança do partido, assumindo o posto de líder da maioria. Já o deputado Pete Aguilar, da Califórnia, atual presidente da bancada democrata, deverá continuar na terceira posição da hierarquia, assumindo a função de novo whip.
Além disso, a ascensão dos democratas à maioria provavelmente desencadeará uma série de disputas por cargos nos níveis inferiores da liderança partidária, incluindo os postos de presidente e vice-presidente da bancada. Essas funções terão um papel especialmente importante na comunicação da mensagem democrata às vésperas das eleições de 2028.
Os democratas enfrentarão seus próprios desafios ao assumir a maioria. Jeffries, em particular, terá de realizar um delicado exercício de equilíbrio entre as demandas conflitantes dos democratas progressistas e socialistas, que exigem uma resposta mais agressiva ao governo Trump, e dos integrantes mais moderados do partido, eleitos em distritos competitivos, que temem um deslocamento excessivo da legenda para a esquerda.
Do outro lado do plenário, a passagem dos republicanos para a minoria na Câmara obrigará o partido a reavaliar sua liderança e sua estratégia para o próximo Congresso.
O atual presidente da Câmara, Mike Johnson, republicano da Louisiana, indicou que deseja continuar liderando o partido mesmo na condição de minoria. Enquanto isso, o líder da maioria, Steve Scalise, também da Louisiana, e o presidente da Comissão Judiciária da Câmara, Jim Jordan, republicano de Ohio, devem lançar candidaturas ao posto de líder da minoria.
As próximas semanas serão decisivas para os republicanos, que correrão para aprovar o máximo possível da agenda de Trump antes que os democratas assumam o poder. Entre os principais itens da lista estão a Lei de Autorização de Defesa Nacional (National Defense Authorization Act) e uma legislação para renovar o financiamento de programas alimentares e agrícolas. Isso se soma à necessidade de aprovar medidas para financiar o governo e evitar uma paralisação da administração federal em meados de dezembro.
Alguns republicanos também querem avançar com um terceiro projeto de lei por meio do mecanismo de reconciliação orçamentária, um amplo pacote de prioridades partidárias que tramitaria por um procedimento legislativo especial, sem necessidade de apoio democrata.
Não está claro, porém, se haverá disposição para permanecer em Washington e realizar esse trabalho após as derrotas desmoralizantes sofridas pelos republicanos na terça-feira.





