A Titan Capital, holding que concentrava parte do patrimônio do controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e que ficou conhecida como a “holding ostentação”, cuja sede fiscal ficava nas Ilhas Cayman, foi formalmente liquidada. E isso abre espaço para a Interpol rastrear ativos internacionais ligados ao ex-banqueiro, principalmente em paraísos fiscais.
Para fontes ligadas às investigações do caso Master e da Operação Compliance Zero, o movimento das Ilhas Cayman deve facilitar que outros países abram dados bancários protegidos onde esses ativos possam estar.
“A Interpol não rastreia diretamente contas bancárias nem pode obrigar outro país a entregar dados financeiros, pois funciona como uma rede de cooperação entre polícias, facilitando o compartilhamento de informações e pedidos de investigação. Mas, quando países adotam medidas como essa liquidação, isso abre espaço para que mais países iniciem processos de varredura, envolvendo supostos investimentos ilícitos com precedentes”, destaca a economista e analista de mercado internacional Regina Martins.
A liquidação da empresa por decisão da Justiça das Ilhas Cayman foi divulgada inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela Gazeta do Povo. A medida foi tomada a pedido de um dos credores internacionais da holding. A reportagem apurou que ela foi consequência das investigações da Polícia Federal (PF) e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), aliado ao apelo para identificar ativos de Vorcaro espalhados por diversos países.
As Ilhas Cayman, no Caribe, são consideradas um dos principais paraísos fiscais do mundo porque o arquipélago não cobra impostos sobre renda, lucros, ganhos de capital ou corporativos para empresas registradas que operam fora do território.
A decisão de encerrar definitivamente as atividades da holding do luxo de Vorcaro partiu da mais alta instância judicial das Ilhas Cayman, a Suprema Corte local.
Como se deu a decisão judicial
Um edital divulgado na sexta-feira (7) formalizou a determinação da Suprema Corte das Ilhas Cayman e convocou credores da Titan a apresentar seus créditos e comprovar eventuais direitos sobre a empresa, conforme prevê a legislação societária local. O documento também trouxe um canal de contato para que os interessados possam se habilitar no processo.
Com a liquidação em curso, os antigos controladores e diretores da holding do luxo perdem qualquer poder de gestão sobre contas bancárias e ativos vinculados à empresa.
A partir de agora, essa gestão passa às mãos dos liquidantes nomeados pela Corte local, integrantes de uma empresa de auditoria. Eles também ficam encarregados de apurar transferências realizadas antes dos bloqueios patrimoniais e, uma vez autorizados judicialmente, devem vender os bens para quitar dívidas, obedecendo à ordem de prioridades estabelecida pela legislação das ilhas.
A ligação com o esquema de esvaziamento do Master
De acordo com o apurado pelo Coaf e pela Polícia Federal brasileira, a Titan Capital não era apenas um veículo de investimentos pessoais de Vorcaro, mas teria sido usada como peça central de um esquema de suposto esvaziamento patrimonial e lavagem de dinheiro relacionado ao colapso do Banco Master.
O órgão de inteligência financeira brasileiro identificou repasses da ordem de R$ 700 milhões feitos por meio de cotas de fundos de investimento do banco para a holding do luxo de Vorcaro, somente de janeiro a julho de 2025. Essas movimentações estão no centro das suspeitas que motivaram tanto o bloqueio de bens no Brasil quanto a liquidação no exterior.
As transferências milionárias ocorreram poucos meses antes da liquidação do Master e da primeira prisão de Vorcaro. Ou seja, a empresa teria sido usada pelos administradores do Master para tentar esconder valores da Justiça brasileira os enviando para o exterior.
É justamente esse ponto que conecta a liquidação da Titan a uma frente de investigação mais ampla. A tentativa de rastrear o patrimônio de Vorcaro fora do país quer identificar possíveis ocultações antes ou depois da quebra do conglomerado financeiro que ele comandava.
Bloqueio no Brasil e o surgimento de uma “nova Titan”
Antes da decisão das Ilhas Cayman, os ativos da holding do luxo de Vorcaro já haviam sido alvo de bloqueio determinado pelo Banco Central em março deste ano no Brasil.
Cerca de um mês depois desse bloqueio, uma estrutura batizada de “nova Titan Capital” chegou a ser criada no Reino Unido, um movimento interpretado pelos investigadores como uma tentativa de reorganizar, sob outra jurisdição, parte do patrimônio que estava sendo cercado pelas autoridades brasileiras.
Com a liquidação decretada agora nas Ilhas Cayman, o alcance da medida deixa de se limitar ao território brasileiro e passa a valer, potencialmente, em qualquer país onde a Titan mantenha ativos por meio de acordos de cooperação jurídica internacional.
Segundo a analista Regina Martins, na prática, isso significa que bancos e instituições financeiras ao redor do mundo que guardem recursos ligados à holding podem ser formalmente notificados a travar movimentações.
Quem está na fila de credores
Entre os credores que cobram valores da Titan está uma das maiores empresa de criptomoedas do mundo, que teria solicitado a liquidação da holding em maio, segundo dados de um serviço externo de inteligência investigativa. A dívida decorre de um empréstimo equivalente de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. O destino desse recurso ainda é desconhecido das autoridades.
Essa empresa deve figurar entre as primeiras posições na fila de pagamentos, por ter suas garantias atreladas a empréstimos concedidos ao Credcesta.
O CredCesta é um cartão de crédito consignado voltado a servidores públicos, que passou a ser operado pelo Banco Master e se tornou um dos principais canais de expansão da instituição financeira. Ele ainda está em operação.
Na lista de credores estaria ainda o Grupo Fictor, que havia anunciado a compra do Master depois que o Banco Central vetou a aquisição da instituição pelo Banco Regional de Brasília (BRB). Isso porque a Fictor teria transferido R$ 30 milhões à holding. O grupo não comentou a operação.
Nas investigações que resultaram na primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, a Titan figurava com participações em cerca de 30 negócios diferentes, uma parte ligada diretamente ao Master. A maior parte desses negócios já foi liquidada.
A holding também abrigava participações adquiridas antes da quebra do banco, como fatias de um restaurante de luxo, uma mineradora e posições em companhias de prestações de serviço de energia e água.
Como funciona o pedido da PF para o rastreamento de recursos pela Interpol
A liquidação da holding de luxo de Vorcaro nas Ilhas Cayman não é a única frente aberta para tentar localizar o patrimônio fora do Brasil. Em julho, a PF recorreu à Interpol para tentar rastrear bens do ex-banqueiro, em especial na América do Norte e na Europa. O objetivo é identificar novas suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes supostamente ligados ao conglomerado Master.
Na época, o pedido foi formalizado por meio de um mecanismo novo da organização policial internacional, conhecido como Silver Notice (Alerta Prata, em inglês), criado especificamente para rastrear internacionalmente bens vinculados a pessoas investigadas ou condenadas por crimes financeiros.
Vale destacar que neste momento Vorcaro figura apenas como investigado. Na prática, a notificação pede que as autoridades de países informem à PF a existência de imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves ou qualquer outro ativo registrado em nome de Vorcaro ou vinculado a ele por meio de terceiros e empresas de fachada.
Segundo a corporação, esse mapeamento vai embasar medidas judiciais de bloqueio, confisco e repatriação de bens, caso a Justiça conclua que eles têm origem ilícita.
A suspeita da PF é de que parte do patrimônio de Vorcaro tenha sido distribuído entre propriedades e fundos de investimento em diferentes países, incluindo paraísos fiscais. Para investigadores, isso reforçaria a relevância da liquidação da Titan, nas Ilhas Cayman, como uma possível peça desse quebra-cabeça patrimonial.
O temor da corporação é de que o banqueiro consiga blindar esses recursos ao longo do tempo, seja revendendo propriedades, seja transferindo para terceiros.
A liquidação do Master pela Justiça americana
O pedido à Interpol foi a segunda frente aberta para rastrear ativos de Vorcaro no exterior. Em abril, a Justiça dos Estados Unidos havia autorizado o liquidante do Banco Master a consultar instituições financeiras norte-americanas em busca de bens do ex-banqueiro, permitindo buscas por imóveis, recursos em fundos de investimento e até obras de arte.
O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. Ele deixou um rombo de aproximadamente R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), decorrente de um esquema que envolvia a emissão de títulos sem lastro real e ativos supervalorizados usados para inflar artificialmente o patrimônio da instituição.
As apurações da Compliance Zero levaram à primeira prisão de Vorcaro em novembro do ano passado. Em março deste ano, houve uma segunda prisão do ex-banqueiro, durante a terceira fase da operação. Vorcaro permanece preso até o momento.
As investigações também avançaram sobre supostas relações de Vorcaro com autoridades públicas, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal, senadores da República, deputados, além da tentativa frustrada de venda de ativos do Master ao BRB e de um suposto esquema envolvendo recursos de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de servidores públicos em vários estados e municípios brasileiros.





