Lexum afirma que decisão de Moraes ignora imunidade parlamentar e põe em risco liberdade de crítica política em ano eleitoral
A associação Lexum divulgou, nesta quarta-feira, 15, uma nota pública em que critica a abertura de um inquérito contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A entidade apontou falhas jurídicas na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e alertou para impactos no debate político e na liberdade de expressão.
Segundo a associação de juristas, o caso levanta preocupações quanto aos limites da jurisdição penal em matéria de discurso político. O despacho de Moraes apresenta falhas estruturais e não enfrenta pontos centrais exigidos pela Constituição e pela legislação penal
“O que se fez foi reproduzir a caracterização da Polícia Federal e, em seguida, incorporar o parecer da PGR, que somou ao mesmo raciocínio o rótulo de ‘falsamente’”, diz o texto. “O ministro relator não examina, em nenhum momento, se a publicação do senador satisfaz, sequer em tese, os requisitos típicos.”
A Lexum sustenta que a decisão deixa de analisar a imunidade parlamentar, prevista no artigo 53 da Constituição. “O texto constitucional é claro e a imunidade é expressa; passar por cima dela sem argumento não é interpretação.” Para a entidade, também não houve avaliação do nexo entre a manifestação e o exercício do mandato.
No campo penal, a associação afirma que não foram examinados os elementos do crime de calúnia. “Para que haja calúnia, a imputação precisa ser de fato determinado — concretamente especificado — e precisa ser falsa com ciência da falsidade pelo agente”, argumenta. “Nenhum desses elementos foi analisado na decisão.”
Moraes usou tipificação criminal erradamente contra Flávio
A nota critica também o contexto da manifestação que motivou o inquérito, uma publicação em rede social. “Uma declaração no futuro do indicativo, sobre matéria objeto de disputa política intensa e de investigações em curso, não satisfaz o requisito da imputação de fato determinado como verdadeiro”, afirma.
A Lexum divulga Nota Pública sobre a PET 15.648/DF, que trata de discurso político, imunidade parlamentar e os pressupostos da jurisdição penal.
Sem conotação partidária, a análise parte de um compromisso institucional: defender o funcionamento regular das instituições,… pic.twitter.com/Acsj57YHoO— Lexum (@lexum_official) April 15, 2026
A associação avalia que confundir um post de rede social com o tipo penal da calúnia “não é um equívoco técnico menor”.
O texto alerta que “avançar sobre o discurso político de um parlamentar oposicionista sem examinar os elementos constitutivos do tipo penal invocado, sem enfrentar a imunidade parlamentar […] revela um padrão que não é compatível com o exercício da jurisdição criminal num Estado Democrático de Direito.”
Outro ponto levantado é a atuação do relator, Alexandre de Moraes. A Lexum afirma haver “problema estrutural” na condução do caso e cita o princípio de que “nenhum homem pode ser juiz em causa própria”.
“A abertura de um inquérito penal contra um parlamentar por uma publicação crítica ao presidente, sem análise dos elementos típicos e sem enfrentamento da imunidade, produz exatamente o tipo de sinalização que corrói o discurso político livre”, diz a entidade. “Esse efeito tem um nome preciso: efeito de silenciamento.”
A Lexum ainda aponta o que chama de assimetria na aplicação de critérios. Ao citar declaração recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre adversários, a entidade afirma que, “se a publicação do senador pode, nos termos desta decisão, ser investigada como calúnia, a declaração do presidente demandaria, pela mesma lógica, tratamento idêntico”.
Para a associação, o fato de isso não ocorrer “demonstra com precisão que o critério aplicado não é jurídico”. A conclusão da entidade é de que a decisão de Moraes “revela um padrão que não é compatível com o exercício da jurisdição criminal num Estado Democrático de Direito”.





